A leitura desse livro foi consequência da leitura do Filha, Avó, Mãe e PUTA, da Gabriela Leite. Não foi uma busca minha, mas uma indicação algorítmica, indicando como um dos meus assuntos, já que adquiri o livro da Gabriela pela internet.
Conheço os autores citados nessa obra en passant e nunca li uma obra deles. Joyce e Becket conheço pela fantástica obra sobre a criatividade, Os Criadores de Daniel J. Boorstin, que li em 1997. E Memória de Minhas Putas Tristes, de Gabriel Garcia Marques, lido na primeira década do século XXI, que devo uma resenha aqui no depoucoempouco.
Como é uma obra curta, mas densa, por eu não conhecer os autores, e são poucos capítulos, vou seguir o sumário e transcrever citações retratando a PUTA na literatura destes.
Começo com a nota a nota de contra capa: “Cada vez que uma puta
entra em um lugar, são efetivamente todas as questões e todos os problemas que
se veem desorientados, O que é arte? O que é dinheiro? O que é o trabalho? O
que é a polícia? O que é o indivíduo? No contato com as putas, as dúvidas qu
parecem mais legítimas de repente se complicam, e as respostas habituais se
tornam ridículas, porque as putas encarnam uma figura: a figura da verdade – e
daquilo que, nela, é insuportável para as forças da ordem, para os hipócritas,
para os governos, sim, as putas são o próprio rosto da metafísica”.
Num exercício de prefácio o autor indica que Bukowski cita muito
as putas em sua obra (lembrem, não li) em vários contos do Fabulário geral do
delírio cotidiano, ele as cita como “seres eternos, entendo-as em serem sempre
um pouco mais que putas – ou melhor -, porque eram putas, elas eram mais do que
os outros seres humanos(...) elas representavam uma espécie de ideal
inascessível (...) detentoras de um segredo que os homens teriam perdido
que, desde então, não teriam cessado de buscar”. Essa citação, remete também a
obra Cabala e arte da apropriação do sexo, do rabino Nilton Bonder, quando ele
cita o Talmud em que rabinos interpretam a iniciativa do homem em conquistar a
mulher, referindo-se a ideia criacionista de que Eva foi tirada da costela de
Adão, e este busca incessantemente seu pedaço perdido, ou seja, as mulheres não
podem procurar o homem para voltar ao seu corpo dilacerado, parafraseando os
rabinos (contem humor).
No capitulo 01 Retrato do artista como puta, Jean-Luc Godard, “as
putas eram o rosto da verdade: eram carne em que se entranhava sua obsessão por
elas – ou seja, sua obsessão pelo próprio cinema”. Godard retratava as
putas em sua obra cinematográfica, mas não de sua criação, mas tomando criações
de outros artistas como Gui de Maupassant, num conto O sinal, em que uma mulher
imita os gestos de uma puta e um homem, de passagem, sobe as escadas e vão as
vias de fato, sendo ela casada e “toma gosto pela coisa”(interpretação minha).
E, claro, a metalinguagem, citando “Baudelaire em Fusées(1851), se
perguntava: O que é arte?, para responder em seguida: Prostituição, atribuindo
ao artista da vida moderna a disposição de aceitar a condição prostituída de
sua prática e, por extensão, de seu ser – todo artista é uma puta.” Paro por
aqui, porque nesse capítulo o autor cita Goya que se inspirou em Arte de
las putas de Moratin para desenhar, Gui Debord, Maupassant que também
inspiraram-se nas putas.
No capitulo 02 A prostituição é um esporte de combate o mote, ou o
gatilho, é a ópera A caixa de Pandora de Franz Wedekind, encenada no
Trianon-Theater, em Viena. O assunto “os censores imperiais não toleram
(...) mostrar o declínio de uma mulher que causava pânico nos homens e aceitava
dinheiro deles em troca do seu amor, porque ao conhecer Lulu (a protagonista da
peça), todos os homens e mulheres, sentiram o desejo de possuí-la, qualquer que
fossem suas origens ou extrações”. Participam desse debate, Karl Kraus e
Theodor Adorno.
Diante do debate moral sobre a personagem Lulu, de que para ser
possuída tinha a virtude de ser despossuída (interpretação minha), e que,
questionava então a sociedade burguesa da Viena de 1900. Questionava o quê? A
hipocrisia, dado que, na Viena o dinheiro comprava tudo. “Lulu, a puta inocente
massacrada por seu último amante (...) era a rachadura no espelho no qual a
burguesia amava contemplar seu reflexo”.
E não para por aí. Das implicações sociais, os debates
desenvolvem-se em torno da Forma e Conteúdo, implicando na estética. Mais
adiante, passa A política da prostituída, esticando-se para Alexandra Kollontai
no seu livro Os fundamentos sociais da questão feminina. Quer mais? Esse
capítulo é fantástico, é melhor ler o livro. Aja fôlego.
No capítulo 03, James Joyce no bordel, revela um “Joyce que
conhecia muito bem o bairro dos bordéis de Dublin: ele o frequentava
regularmente antes de conhecer sua companheira Nora Barnacle – e também muitas
vezes depois”, que lhe serviu de fundamento para as principais personagens
prostitutas no universo de James Joyce aparecem no episódio 15
("Circe") do romance Ulisses. Nesse capítulo aparece pela
primeira vez a vida dos autores e suas relações com a boemia e nela, a
prostituição como elemento comum da noite.
No capítulo 04 Autobiografia de um cliente o autor é Chester Brown
(não conheço) e sua obra Pagando por sexo a partir dos seus “39 anos, decidiu
se relacionar com uma puta pela primeira vez na vida. Simples e doce, a
experiência o fez querer biz – o que se estendeu até janeiro de 2004” O
interessante desse capítulo, tudo, é a comparação com a obra Sobre a infinidade
do amor, de Tullia d’Aaragona, na Florença de Cósimo di Médici, quatrocentos e
cinquenta anos antes do rompimento de Brown com sua namorada. Tullia, uma
prostituta. Aqui a existência nos encurrala. “Passar o tempo com uma puta é
passar um tempo consigo mesmo (...) como passar diante de um espelho: ali
estamos nus, confrontados com nosso próprio reflexo, e obrigados a nos haver
com nosso próprio desejo”. Gabriela Leite no Filha,
Avó, Mãe e PUTA também expõe isso sobre os clientes. O rabino Newton
Bonder também o faz na Cabala e a arte de apropriação do sexo, ao citar trechos
do Gênesis e do Talmud.
No capitulo 05 Manifesto Peripatético cita O balcão de Jean Genet.
A peça conta a vida em um bordel em meio a uma tentativa de revolução que acaba
abortada. Nesse capítulo já inicia com Genet criticando ferozmente todas as
montagens de seu texto, principalmente nos que o utilizam para “metaforizar” o
contexto do bordel como “sátira dirigida as grandes instituições do Estado, das
quais cada membro aparece como um cliente do bordel”. Genet dizia que “não se
tratava nada disso”. Esse início de capítulo me remeteu a uma interpretação de
Nelson Rodrigues num dos Festivais de Teatro Isnard Azevedo aqui em
Florianópolis que presenciei uma de suas namoradas (acho) sair esbravejando do
Teatro Ademir Rosa que “assassinaram Nelson Rodrigues”. Tive o prazer de
presenciar alguém legitimamente reivindicando a estética publicamente.
Conforme professor André Carreira, diretor, ator, doutor, no curso
de Especialização em Metodologia do Ensino das Técnicas Teatrais: A
Formação do Ator, 1996/1997-UDESC, essas manifestações eram comuns nos palcos
da Europa no século XX. Entendo isso como o debate vivo no teatro vivo e não
somente na academia e, ainda bem (e não graças a deus), que não um mero produto
estratificado/qualificado para uma classe social que pode pagar para consumir.
Quando o teatro, a arte, deixa de ser instrumento de expressão, reflexão,
questionamento, para um produto estático ensimesmado de prateleira. O livro
Metafísica da Puta se propõe a essa reflexão: o artista se prostitui ao vender
sua arte? Não como verdade, a prostituta, mas como ilusão, quem consome o que
ela vende, em vez de sexo, poder, “amor”, riqueza? Divaguei legal. Continuando.
Enfim, esse capítulo nos apresenta as reflexões estéticas de
Genet, nos guiando pelo teatro Nô, no qual destaco a referência dele sobre atuação
que “a relação mantida pelos atores com seu público ser designada pela palavra
hana (flor) (...) a flor era a verdade: a ilusão era o verdadeiro (...) A puta
que ser torna flor e que, assim, faz nascer a ilusão do encantamento é a mestre
do teatro ritualizado pelo qual a verdade ser torna possível, ou melhor,
sensível A puta não é apenas o rosto de uma verdade (política, econômica,
artística ou mesmo ontológica) que lhe seria estranha: ela é a verdade como tal
– ela é seu corpo metafísico”. Claro que esse é o capítulo que mais entendi,
porque fiz especialização em Formação do Ator, e estudamos nas condições da
especialização, o Teatro Nô, mas ficou a essência, o conteúdo programático,
didático tenha que estudar de novo.
Nesse capítulo também transitam Sartre, que prefaciou as Obras
completas de Genet e põe em diálogo sobre A comédia da perversão, Lacan,
Sartre, sobre a presença do Mal na obra O balcão de Genet, em especial na
personagem da puta. Dou um salto para o final desse capítulo e sua “tese derradeira:
as putas são os mais metafísicos de todos os seres humanos. E talvez sejam os
únicos. Eis por que causamos a elas tanto mal”.
No fim do livro o autor retoma Bukowiski ao deixar “Hamburgo, a
lembrança das putas que ele cruzara sob a chuva (...) a experiência metafísica
da qual as putas lhe haviam oferecido o caminha continuaria a assombrá-lo ainda
por muito tempo – porque ele era um homem de verdade. Não se pode trapacear com
a verdade: pode-se apenas tentar destruí-la, como não cessam de fazer, com a
maior violência, as forças policiais do mundo inteiro (...) Mas Bukowiski era
um sábio, e como todos os sábios, ele detestava a ordem, a polícia, a
evidência, a regularidade, a regra, a norma, o bom gosto, o bom, o bem – (...)
O que ele via, a partir do assento (do carro) onde estava instalado, não eram
monstros cúpidos ou mulheres pedidas; o que ele via eram silhuetas tentando se
manter eretas sob a chuva, quando tudo estava arranjado para que se curvassem”.
É isso. O que tiro desse livro é o tamanho da minha ignorância em relação aos artistas e obras citadas e a concretude da puta “metafisicada” (adoro fazer isso na língua portuguesa) na tentativa de abstrair, poetizar o melhor que elas (eles, os prostitutos também) oferecem: um bom momento de sexo. E o que perpassa pelo livro, a relação do artista como prostituto ao vender sua arte.









