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sábado, 15 de agosto de 2026

Cabala e a arte de apropriação do sexo. Apropriando a libido, a intimidade, o gênero e a nubilidade

        Nós, somos da espécie Homo, surgidos na África há dois milhões e meio de anos. Destes, somos Homo Sapiens, surgidos há cerca de 300 mil anos. Nesse processo, os agrupamentos para sobreviver caracterizam-se por perceber-se, conhecer o conhecimento que produziam, e desenvolver o pensamento simbólico complexo estruturando a linguagem gestual, oral e mais tarde a escrita, considerando as diversas formas de representações nas cavernas, rochas externas, nós, marcas na vegetação para sinalizar caminhos. Dentre os tantos processos de “sapiensisações” (adoro fazer isso na língua portuguesa) estão os Hebreus que se constituíram por volta de 2000 a.C. na região do Oriente Médio. Constituíram-se e não surgiram, do nada, de forma pura. São a mistura (gosto disso) de outras pessoas, culturas da região e que se consolida no judeu atual, também uma mistura de outros povos, ou seja, ninguém é puro, como os pretensos Nazistas Arianos, embora romanticamente aculturados, todos o que queiram ser. Somos todos da mesma fonte: a África Negra e miscigenados e deu! E como nos multiplicamos: relações sexuais. Com desejo e prazer.

Segundo a tradição [bíblica], portanto pensamento simbólico metafórico, eles eram pastores nômades de origem semita que partiram da cidade de Ur, na [Mesopotâmia], sob a liderança do patriarca [Abraão], em direção à terra de Canaã. E que também, dali para frente só “mistureba”.

Dito isso, a minha vista de um ponto do exposto do A Cabala e a arte de apropriação do sexo, da série Reflexos e Refrações, é complementar ao tema Trabalhadoras do sexo, no Filha, Mãe, Avó e PUTA de Gabriela Leite e na obra de Metafísica da puta de Laurent de Sutter, o sexo por ele mesmo.

Dito isso 2, o comentarista de orelha “nada mais nada menos” é Nei Matogrosso, citando a “maneira transgressora de se referir a um assunto que ainda hoje não se fala nas casas das pessoas”. Pronto. Nem precisaria ler o livro. Mas não, Nei só ratifica o autor Nilton Bonder: tem que ler. Só parafraseio Nei: “maneira didática de se referir a um assunto que ainda hoje não se estuda nas escolas”. Nos anos de 1999 e 2002, trabalhei como formador de professores de Arte na Secretaria de Estado da rede Pública Estadual de Ensino de Santa Catarina. Numa dessas Capacitações, assim era denominadas, com professores de Arte de todas as Coordenadorias Regionais, CREs, trabalhei com eles uma proposta metodológica, dividindo em grupos temáticos para elaborarem planos aula com base na metodologia de aprendizagem da Teoria da Atividade, desenvolvendo suas categorias fundantes do processo de interação com o conhecimento: Operação, Ação e Atividade Significativa. Então, distribui para cada grupo um tema da arte em seus diversos períodos da história da arte, linguagens, suportes e contextos: Natureza Morta, Retrato, Paisagem e Nú Artístico.

 No interagir com os grupos e o desenvolvimento de suas atividades, percebi que o grupo com o tema Nú Artistico não caminhava. Entendendo que todo processo tem etapas de desenvolvimento para cada um, observei que na terceira vez que interagi com o grupo não haviam produzido nada. Perguntei qual era a dificuldade e eles exporem que não se sentiam pessoalmente à vontade com aquele tema e tão pouco trabalhá-lo com os alunos, quiçá mostras reproduções de obras de arte com o tema. Lembrando que o ensino de Arte deu um salto significativo com a AbordagemTriangular (fazer artístico, leitura de imagem e contextualização histórica, não necessariamente nessa ordem) e as novas tecnologias democratizaram acesso a imagem. Então, sentamos e conversamos sobre a dificuldade com a nudez, mesmo ela sendo um tema da arte e tendo uma representação do belo romântico do corpo, eles não sabiam distinguir o Nú Artístico de Tema/conteúdo de Arte de pornografia, pecado, culpa, pudor e tão pouco trabalhar os temas transversais diretos vinculados a este conteúdo: sexualidade e corporeidade, interdisciplinares com Biologia e Educação Física, e os temas transversais nas áreas de história, filosofia, sociologia. Ou seja, sexo não se conversa em casa e nem na escola de forma mediada e saudável. Sexo ainda é tema grosseiro de dois extremos: na pornografia, com um sim, e na religião, como um não. Os diversos matizes existentes no cotidiano saudável são totalmente ignorados, produzindo pessoas e sociedades ignorantes, e portanto, doentes. Voltemos ao livro.

Com uma epígrafe talmúdica, mil e quinhentos anos atrás: Três coisas nesse mundo se assemelham ao mundo dos céus: o shabat, o brilho do sol e o uso da cama. Também encerra aqui. Para bom entendedor meio Talmud é suficiente. Não. Vamos adiante.

Eduardo Bueno, o Peninha, gremista diga-se de passagem, nos diz que o teste de conhecer um bom livro é ler a primeira linha ou parágrafo do primeiro capítulo. Aqui já foi aprovado na nota de orelha de Nei Matogrosso e na epígrafe Talmúdica. Mas não são a primeira frase formal do livro. Vamos a ela: “Abordar o tema do sexo é um desafio viril”. Pronto. Aprovado. Vindo de um rabino. Perfeito. Um detalhe antes: não sei como o Cristianismo e o Mulçumano abordam o sexo e/ou a prostituição. De senso comum eu imagino que o tratem como pecado, sujo, imoral, o que não encontrei na vista a partir de um ponto sexo/prostituição de um Rabino.

Pontualíssimo Nilton Bonder esclarece que o livro “não é sobre sexualidade, mas sobre sexo, pois depois de constatarmos que existimos, o sexo é o elemento mais categórico de nosso corpo”. E mais feliz ainda diz que “para cada pessoa, sexo é um elemento do corpo, de como alguém veio ao mundo, de sua nudez e seu talhe (...) e nele poderá se contrapor ou buscar modifica-lo em outra identidade sexual, caso ela se mostre mais adequada. Para tal, porém, terá que esculpir-se a partir desta determinação e destino”. Isso é só a introdução. Fantástico. Quebrou já o conceito Homem/Mulher do próprio Gênesis e reconhece a diversidade das manifestações do sexo (termo meu. Indicado para livrar o autor de uma possível má interpretação).

Ele também já aponta o sexo como binário em que “a sociedade aplicou distintas propriedades inerentes à essência de ‘dois’”, e ainda “por força da multiplicidade – ainda que restrita -, provocar gosto pela diversidade”. Faço o recorte aqui, para o casal (Homem/Mulher, Mulher/Mulher/ Homem/Homem e suas variações LGTBQIAPN+) (não do autor), trisal, quadrisal, não monogâmico, ou seja, a multiplicidade inerente nas “virtudes das relações do tipo eu-tu. Sim, o binário se presta a muitas políticas (...) Não tanto pelo que ele determina, até porque a evolução é incompatível com a noção de imutável, mas para o que aponta. Sexo é corpo e sexo é encaixe”.

 No capítulo 1, Cabala e apropriação indica o sexo como “a identidade que diz respeito aquilo que se é, e se constitui majoritariamente de fatores alheios à escolha de alguém”, entendi essa frase esclarecendo a categoricamente a legitimidade da LGBTQIAPN+ como condição inerente, intrínseca da espécie Homo a dois milhões e meio e na sua descendência, Homo sapiens, nós. Somente descriminada, negada no desenvolvimento simbólico gestual, oral e mais tarde a escrita de algumas culturas.

Na Personificação – não é bom estar só, esclarece que “o sexo diz respeito a si e não ao outro ou à relação com o outro (...) sendo que essa afirmação pode causar estranhamento, dado à cultura humana (não há outra cultura, brinco com o autor), que estabeleceu uma conexão direta entre sexo e afeto, trazendo ambiguidade confundindo as duas áreas”. Essa reflexão dá pano para manga, pois trata literalmente do para fazer sexo não precisa do afeto, da admiração, do amor pelo outro para namorar, casar, procriar, só precisa do amor próprio pelo prazer. E aqui o conceito de prostituição como profissão do prazer se fundamenta. A autobiografia Filha, Avó, Mãe e Puta, do prazer de vender o produto sexo com prazer, sem se apaixonar pelo cliente e o Metafísica da Puta com as personagens putas, portanto trabalhadoras do sexo, representando esse universo concreto nos palcos, e até no simbolismo, os autores apedrejados: Joga pedra na Geni.

No livro A Cabala e arte da apropriação do Sexo, Nilton Bonder nos explica a confusão construída, erroneamente, culturalmente sobre essa conexão direta entre sexo e afeto. Que não há. Sexo é sexo e afeto é afeto. Explico concretamente: um homem rico, velho, casado, quatro filhas com uma, no caso, esposa que entregou sua vida a ele (normalmente confusão entre sexo e afeto). Prostitui, uma jovem de vinte anos, tendo-a para sexo (sem afeto) quando ele quer, semianalfabeta, pobre, de família simples, ela se mantém assim, uma vida inteira, sem ganhar um centavo, servindo-o com sexo. As putas (que separam sexo e afeto) são melhores porque trabalham, prostituem-se, cobram por livre vontade. Já as amantes e as esposas, são prostituídas pelo covarde banana senhor de família, de graça e pior, com doentio afeto.

As jovens prostituídas (rotuladas romanticamente como amantes), simples, pobres, apaixonadas por cafetões velhos, velhacos, covardes da boa sociedade, são apenas lixo descartável depois de velhas, usadas, num final já programado, para elas, mero ínterim tido como falha, do “bom casamento” do velho banana covarde até que a morte o separe da sua esposa prostituída mor.

No capítulo 2, Apropriação ele divide em tópicos, todos a partir de alguma citação do Talmud.

Na Febre física – apropriação da libido, (um sendo um), “como diretamente relacionada ao corpo. E o corpo se excita por meio de dois recursos principais: o toque e o olhar”. E explica os modelos de Febres.

Na Floração emocional – Apropriando a intimidade, (você no outro), “A intimidade é a apropriação de si através de um outro. Ela projeta o ser para além do corpo, fazendo com que ele experimente uma parte de si que só existe em relação com o outro”.

Floração intelectual – apropriando o gênero, (o outro em você). Nesse tópico ele baseia na relação homem/mulher, com base na sua profissão de fé, o judaísmo, e na ideia criacionista, macho/fêmea. da  Torah e não do Talmud, Li o tópico, mas o transpassei para toda experiência de sexo do espectro LGBTQIAPN+, nossa descendência homo sapiens de 200 mil anos.

Febre espiritual – Apropriando a nubilidade, (um virando um). Aqui ele não se refere ao Talmud, mas à Torah. “A nubilidade é o estado de quem é núbil, de quem tem desejos de casar-se (...) O principal requisito para um casamento bem-sucedido não é a afinidade ou a atração, mas o desejo núbil, o fascínio por expandir a si mesmo. Uma família é uma expansão, mesmo que seja um contrato entre dois que não comtemple procriação”. Aqui ele diz uma frase significativa: “Esse desejo é aquele que ensejará um acordo que seja propulsor do projeto pessoal de dois (ou mais de dois) indivíduos”.

No Capítulo 3, Perversões e Pornografias, o autor nos esclarece que a “Perversão – da raiz per vertere, virar às avessas – se manifesta por uma inversão (...) ocorrerá quando o indivíduo, em vez de apropriar-se de si, tentará apropriar-se do outro”. E “Pornografia (...) do radical porne que significa ‘prostituta’ ou ‘a vendida/trocada’. E no termo grafos, escrever/descrever. Literalmente (...) àquele que escreve sobre prostitutas (...) o caráter mercantilista, por substituição (...) apropriar-se não de si, mas de outra coisa (...) A perversão é a inversão do sujeito, a pornografia é a substituição do objeto”. Esse capítulo desvela o velho, casado com quatro filhas, quando ele prostitui (não de uma Profissional do Sexo) a jovem, solteira, analfabeta como “apropriar-se de outra coisa, do objeto”, transforma-a em coisa, objeto. O capitulo se divide nos seguintes tópicos:

Frieza física – perversões da libido (abuso), a partir do simbolismo de determinadas culturas, “... se deparar com as varias possibilidades de requintar sensações e assim estimular aspirações, belezas e deleites do sexo, o humano conheceu também a obscenidade: o corpo podia ser associado à carne, ao mundano, a grosserias e imundícies. Tal percepção responde pela presença de ajuizamentos morais na história da sexualidade humana” (as dificuldades dos professores de arte que experienciei).

Há um subtópico fantástico, Nudez de corpo e de olhar,” A tentativa moral de civilizar controlando a sexualidade é outra forma de abuso (...) A nudez humana não é mais revestida de sua pureza, ela requer interação com malícias – doces malícias” em A flor da pele Chico Buarque ilustra perfeitamente esse tópico.

Defloração emocional – pornografias da intimidade (assédio). Aqui a citação do Talmud Yoma 29a (mil e quinhentos anos) é alusiva ao categórico: “Não é não”. Inclusive, o não é não, da jovem, pobre, semianalfabeta, que ignora esse assédio.

Defloração intelectual – pornografias do gênero (fetiche), Ketubot 65a, do Talmud, um rabino frente a um depoimento que aludia à intimidade de um amigo fica excitado e “convulsivamente, volta correndo para casa a fim de ter relações com sua mulher”, ilustrando “de que o erótico, aqui, não é libidinal, uma excitação física, mias que ele se origina na esfera intelectual”.

Frieza espiritual – perversões da nubilidade (promiscuidade), um jovem busca uma prostituta e essa lhe oferece o melhor. No entanto, o jovem dá “uma brochada que nasce de uma nova dimensão da sexualidade”. A partir disso, a prostituta também “brocha” e então ela vende tudo  os dois entram em estado d nubilidade, onde todos os aparatos usados pela prostituta se apresentam na cama dos nubentes. Aqui é tratado a ideia do sexo responsivo, aquele pelo qual na nubilidade, não perde a “promiscuidade”, “desafio de qualquer casamento, independente de sua longevidade, amadurece e se torna o desejo de um virar um’”.

E por final, o Apêndice, parte que me apaixonei, pois Nilton Bonder, traz enxertos do Talmud, mil e quinhentos anos, onde ratifiquei a milenar honestidade intelectual dos rabinos.Com os comentários de Nilton Bonder, divide-se em:

1 - Sexo e incontinência, Talmude Hag, 16a, “Por mais que as construções morais, os costumes e a sociedade estabeleçam regras para atender a valores em ‘Nome dos Céus’, expedientes de escape ara o indomável devem ser disponibilizados. Reprimir é como jogar combustível na já inflamável essência do desejo”

2 – Sexo e estupro, Talmude Hag 9a, “De maneira sagaz, a mulher consegue demonstrar que, que quando se trata de sexualidade, nenhuma experiência meramente sensorial pode atenuar a violência e o abuso sofridos (...) O corpo humano pertence exclusivamente ao seu sujeito, e quando alguém desrespeita isso, fere profundamente a existência (...) uma mulher não é um corpo que responde a excitações, mas uma consciência que o habita”.

3 – Sexo e intimidade temporária, Yoma 18a, “”Encontros que se constroem como uma experiência única podem conter a eternidade da entrega que fazem acontecer, chegando a ser um evento perene num único dia. ‘Até que a morte os separe’ são lembranças para a vida inteira que podem ser deflagradas numa experiência singular”.

4 – Sexo e tamanho, Talmude B.Mts., Remete-se ao tamanho do pênis “E o maior atributo desse trecho bizarro do Talmude é reconhecer a fisicalidade inerente ao sexo. Sem embaraços e de forma direta, a passagem indica o corpo e sua nudez como aparatos essenciais ao sexo. Apenas por sua apropriação a sexualidade pode ser representada. Daí a importância de acoplagens e encaixes, típicos do que forma e corpo”.

5 – Sexo e etiqueta, “Na sexualidade, mesmo as permissões mais invasivas e ousadas são experimentadas num espaço de consentimento, não de uso (...) Nada é sujo ou indecente na sexualidade se os parceiros estiverem disponibilizando e franqueando seu corpo mediado por uma refinada afirmação de autonomia”.

6 – Sexo e traição, Talmude Meg.12a, “Essa curiosa passagem deseja revelar que se existe a semente da infidelidade, ela existe para ambos os congêneres (...) A deslealdade do adultério não é para com o outro, mas para com a natureza contratual da nubilidade”. Nesse enxerto complemento com o depoimento de uma garota de programa, em que ela diz: os homens me procuram para não traírem suas namoradas ou esposas, ou seja, não trair o afeto, o sentimento. Ao passo que, fora da prostituição, apaixonar-se, afeiçoar-se por outra companhia, pois gera nova nubilidade e amplia exponencialmente a traição.

7 – Sexo e frequência, o Talmude regulamenta a frequência conforme a disposição com o trabalho. Quem trabalha na mesma cidade, duas vezes por semana. Em outra cidade, uma vez. Marinheiros ausentes, pode ser uma vez a cada seis meses. E alerta, nos casos comuns, privar a esposa por mais de uma semana estabelece jurisprudência para iniciar o divórcio. Nesse enxerto complemento que fora do judaísmo, ou qualquer imposição religiosa, a frequência e disposição diz respeito a cada um, ao seu ritmo, a sua predisposição, e no caso dos civis, diz respeito a sua individualidade pois o sexo não está vinculado a rituais nubentes, mas a existência cotidiana.

8 – Sexo e culpa, Av.Zara 17A, esse enxerto carece de sua introdução: “Dizia-se que Rabi Eleazar bem Dordia não perdia uma única prostituta no munda sem que tivesse relações sexuais”. Faço uma piada: vivia endividado. Aqui o convívio do judaísmo com a prostituição, entendendo-a como pecado e mundana, e com isso, a busca do perdão pela fraqueza. Destaco, isso no contexto religioso, na vida civil não há essa culpabilidade. Na religião o sexo é simbólico, espiritual, núbil, na vida civil ele é concreto, material, de dois.

9 – Sexo e autoconhecimento, Kid, 81A, “As pessoas que conhecem sua excitação podem ficar mais relaxadas. Aquelas que, no entanto, têm propensão a cálculos e cogitações, essas precisam se antecipar para não ultrapassar o ponto do não ‘retorno’”. Inclusos aqui todos os machistas.

10 – Sexo e receptividade, Talmude Nr,20A, “A receptividade ao sexo é algo que vai se construindo num processo que não depende da puberdade. Uma mistura de ocultamentos e interditos vai trançando uma intricada relação entre o olhar e nudez, a tal ponto que fica nítido o momento em que (...) algo vira intrinsecamente desejável”.

É isso. Essa abordagem do rabino Nilton Bonder, entrelaçada pelo judaísmo, se pôs em diálogo com a minha abordagem ateísta, e elas se entrelaçaram. O bom e velho sexo, origem da espécie Homo, há dois milhões e meio de anos, nos separou como espécie ao desenvolver o pensamento simbólico complexo estruturando a linguagem gestual, oral e mais tarde a escrita, considerando as diversas formas de representações, negando-o, demonizando-o, mas como referendam Nilton Bonder, nesse livro e Chico Buarque, em O que será/ A flor da pele: “O que não tem vergonha, nem nunca terá/ O que não tem governo nem nunca terá/ O que não tem juízo”

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Metafísica da Puta

          Nós, somos da espécie Homo, surgidos na África há dois milhões e meio de anos. Destes, somos Homo Sapiens, surgidos há cerca de 300 mil anos. Nesse processo, os agrupamentos para sobreviver caracterizam-se por perceber-se, conhecer o conhecimento que produziam, e desenvolver o pensamento simbólico complexo estruturando a linguagem gestual, oral e mais tarde a escrita, considerando as diversas formas de representações nas cavernas, rochas externas, nós, marcas na vegetação para sinalizar caminhos. Dentre os tantos processos de “sapiensisações” (adoro fazer isso na língua portuguesa) estão os Hebreus que se constituíram por volta de 2000 a.C. na região do Oriente Médio. Constituíram-se e não surgiram, do nada, de forma pura. São a mistura (gosto disso) de outras pessoas, culturas da região e que se consolida no judeu atual, também uma mistura de outros povos, ou seja, ninguém é puro, como os pretensos Nazistas Arianos, embora romanticamente aculturados, todos o que queiram ser. Somos todos da mesma fonte: a África Negra e miscigenados e deu! E como nos multiplicamos: relações sexuais. Com desejo e prazer.

Segundo a tradição [bíblica], portanto pensamento simbólico metafórico, eles eram pastores nômades de origem semita que partiram da cidade de Ur, na [Mesopotâmia], sob a liderança do patriarca [Abraão], em direção à terra de Canaã. E que também, dali para frente só “mistureba”.

Dito isso 1, a minha vista de um ponto do exposto do A Cabala e a arte de apropriação do sexo, da série Reflexos e Refrações, é complementar ao tema Trabalhadoras do sexo, no Filha, Mãe, Avó e PUTA de Gabriela Leite e na obra de Metafísica da puta de Laurent de Sutter, o sexo por ele mesmo.

Dito isso 2, o comentarista de orelha “nada mais nada menos” é Nei Matogrosso, citando a “maneira transgressora de se referir a um assunto que ainda hoje não se fala nas casas das pessoas”. Pronto. Nem precisaria ler o livro. Mas não, Nei só ratifica o autor Nilton Bonder: tem que ler. Só parafraseio Nei: “maneira didática de se referir a um assunto que ainda hoje não se estuda nas escolas”. Nos anos de 1999 e 2002, trabalhei como formador de professores de Arte na Secretaria de Estado da rede Pública Estadual de Ensino de Santa Catarina. Numa dessas Capacitações, assim era denominadas, com professores de Arte de todas as Coordenadorias Regionais, CREs, trabalhei com eles uma proposta metodológica, dividindo em grupos temáticos para elaborarem planos aula com base na metodologia de aprendizagem da Teoria da Atividade, desenvolvendo suas categorias fundantes do processo de interação com o conhecimento: Operação, Ação e Atividade Significativa. Então, distribui para cada grupo um tema da arte em seus diversos períodos da história da arte, linguagens, suportes e contextos: Natureza Morta, Retrato, Paisagem e Nu Artístico.

 No interagir com os grupos e o desenvolvimento de suas atividades, percebi que o grupo com o tema Nu Artístico não caminhava. Entendendo que todo processo tem etapas de desenvolvimento, observei que na terceira vez que interagi com o grupo não haviam produzido nada. Perguntei qual era a dificuldade e eles expuseram que não se sentiam pessoalmente à vontade com aquele tema e tão pouco trabalhá-lo com os alunos, quiçá mostras reproduções de obras de arte com o tema. Lembrando que o ensino de Arte deu um salto significativo com a Abordagem Triangular (fazer artístico, leitura de imagem e contextualização histórica, não necessariamente nessa ordem) e as novas tecnologias democratizaram acesso a imagem. Então, sentamos e conversamos sobre a dificuldade com a nudez, mesmo ela sendo um tema da arte e tendo uma representação do belo romântico do corpo. Eles não sabiam distinguir o Tema/conteúdo o Nu Artístico de pornografia, pecado, culpa, pudor e tão pouco trabalhar os temas transversais diretos vinculados a este conteúdo: sexualidade e corporeidade, interdisciplinares com Biologia e Educação Física, e os temas transversais nas áreas de história, filosofia, sociologia. Ou seja, sexo não se conversa em casa e nem na escola de forma mediada e saudável. Sexo ainda é tema grosseiro de dois extremos: na pornografia, com um sim, e na religião, como um não. Os diversos matizes existentes no cotidiano saudável são totalmente ignorados, produzindo pessoas e sociedades ignorantes, e portanto, doentes. Voltemos ao livro.

Com uma epígrafe talmúdica, mil e quinhentos anos atrás: Três coisas nesse mundo se assemelham ao mundo dos céus: o shabat, o brilho do sol e o uso da cama. Também encerra aqui. Para bom entendedor meio Talmud é suficiente. Não. Vamos adiante.

Eduardo Bueno, o Peninha, gremista diga-se de passagem, nos diz que o teste de conhecer um bom livro é ler a primeira linha ou parágrafo do primeiro capítulo. Aqui já foi aprovado na nota de orelha de Nei Matogrosso e na epígrafe Talmúdica. Mas não são a primeira frase formal do livro. Vamos a ela: “Abordar o tema do sexo é um desafio viril”. Pronto. Aprovado. Vindo de um rabino. Perfeito. Um detalhe antes: não sei como o Cristianismo e o Mulçumano abordam o sexo e/ou a prostituição. De senso comum eu imagino que o tratem como pecado, sujo, imoral, o que não encontrei na vista a partir de um ponto sexo/prostituição de um Rabino.

Pontualíssimo Nilton Bonder esclarece que o livro “não é sobre sexualidade, mas sobre sexo, pois depois de constatarmos que existimos, o sexo é o elemento mais categórico de nosso corpo”. E mais feliz ainda diz que “para cada pessoa, sexo é um elemento do corpo, de como alguém veio ao mundo, de sua nudez e seu talhe (...) e nele poderá se contrapor ou buscar modifica-lo em outra identidade sexual, caso ela se mostre mais adequada. Para tal, porém, terá que esculpir-se a partir desta determinação e destino”. Isso é só a introdução. Fantástico. Quebrou já o conceito Homem/Mulher do próprio Gênesis e reconhece a diversidade das manifestações do sexo (termo meu. Indicado para livrar o autor de uma possível má interpretação).

Ele também já aponta o sexo como binário em que “a sociedade aplicou distintas propriedades inerentes à essência de ‘dois’”, e ainda “por força da multiplicidade – ainda que restrita -, provocar gosto pela diversidade”. Faço o recorte aqui, para o casal (Homem/Mulher, Mulher/Mulher/ Homem/Homem e suas variações LGTBQIAPN+) (não do autor), trisal, quadrisal, não monogâmico, ou seja, a multiplicidade inerente nas “virtudes das relações do tipo eu-tu. Sim, o binário se presta a muitas políticas (...) Não tanto pelo que ele determina, até porque a evolução é incompatível com a noção de imutável, mas para o que aponta. Sexo é corpo e sexo é encaixe”.

 No capítulo 1, Cabala e apropriação indica o sexo como “a identidade que diz respeito aquilo que se é, e se constitui majoritariamente de fatores alheios à escolha de alguém”, entendi essa frase esclarecendo a categoricamente a legitimidade da LGBTQIAPN+ como condição inerente, intrínseca da espécie Homo a dois milhões e meio e na sua descendência, Homo sapiens, nós. Somente descriminada, negada no desenvolvimento simbólico gestual, oral e mais tarde a escrita de algumas culturas.

Na Personificação – não é bom estar só, esclarece que “o sexo diz respeito a si e não ao outro ou à relação com o outro (...) sendo que essa afirmação pode causar estranhamento, dado à cultura humana (não há outra cultura, brinco com o autor), que estabeleceu uma conexão direta entre sexo e afeto, trazendo ambiguidade confundindo as duas áreas”. Essa reflexão dá pano para manga, pois trata literalmente do para fazer sexo não precisa do afeto, da admiração, do amor pelo outro para namorar, casar, procriar, só precisa do amor próprio pelo prazer. E aqui o conceito de prostituição como profissão do prazer se fundamenta. A autobiografia Filha, Avó, Mãe e Puta, do prazer de vender o produto sexo com prazer, sem se apaixonar pelo cliente e o Metafísica da Puta com as personagens putas, portanto trabalhadoras do sexo, representando esse universo concreto nos palcos, e até no simbolismo, os autores apedrejados: Joga pedra na Geni.

No livro A Cabala e arte da apropriação do Sexo, Nilton Bonder nos explica a confusão construída, erroneamente, culturalmente sobre essa conexão direta entre sexo e afeto. Que não há. Sexo é sexo e afeto é afeto. Explico concretamente: um homem rico, velho, casado, quatro filhas com uma, no caso, esposa que entregou sua vida a ele (normalmente confusão entre sexo e afeto). Prostitui, uma jovem de vinte anos, tendo-a para sexo (sem afeto) quando ele quer, semianalfabeta, pobre, de família simples, ela se mantém assim, uma vida inteira, sem ganhar um centavo, servindo-o com sexo. As putas (que separam sexo e afeto) são melhores porque trabalham, prostituem-se, cobram por livre vontade. Já as amantes e as esposas, são prostituídas pelo covarde banana senhor de família, de graça e pior, com doentio afeto.

As jovens prostituídas (rotuladas romanticamente como amantes), simples, pobres, apaixonadas por cafetões velhos, velhacos, covardes da boa sociedade, são apenas lixo descartável depois de velhas, usadas, num final já programado, para elas, mero ínterim tido como falha, do “bom casamento” do velho banana covarde até que a morte o separe da sua esposa prostituída mor.

No capítulo 2, Apropriação ele divide em tópicos, todos a partir de alguma citação do Talmud.

Na Febre física – apropriação da libido, (um sendo um), “como diretamente relacionada ao corpo. E o corpo se excita por meio de dois recursos principais: o toque e o olhar”. E explica os modelos de Febres.

Na Floração emocional – Apropriando a intimidade, (você no outro), “A intimidade é a apropriação de si através de um outro. Ela projeta o ser para além do corpo, fazendo com que ele experimente uma parte de si que só existe em relação com o outro”.

Floração intelectual – apropriando o gênero, (o outro em você). Nesse tópico ele baseia na relação homem/mulher, com base na sua profissão de fé, o judaísmo, e na ideia criacionista, macho/fêmea. da  Torah e não do Talmud, Li o tópico, mas o transpassei para toda experiência de sexo do espectro LGBTQIAPN+, nossa descendência homo sapiens de 200 mil anos.

Febre espiritual – Apropriando a nubilidade, (um virando um). Aqui ele não se refere ao Talmud, mas à Torah. “A nubilidade é o estado de quem é núbil, de quem tem desejos de casar-se (...) O principal requisito para um casamento bem-sucedido não é a afinidade ou a atração, mas o desejo núbil, o fascínio por expandir a si mesmo. Uma família é uma expansão, mesmo que seja um contrato entre dois que não comtemple procriação”. Aqui ele diz uma frase significativa: “Esse desejo é aquele que ensejará um acordo que seja propulsor do projeto pessoal de dois (ou mais de dois) indivíduos”.

No Capítulo 3, Perversões e Pornografias, o autor nos esclarece que a “Perversão – da raiz per vertere, virar às avessas – se manifesta por uma inversão (...) ocorrerá quando o indivíduo, em vez de apropriar-se de si, tentará apropriar-se do outro”. E “Pornografia (...) do radical porne que significa ‘prostituta’ ou ‘a vendida/trocada’. E no termo grafos, escrever/descrever. Literalmente (...) àquele que escreve sobre prostitutas (...) o caráter mercantilista, por substituição (...) apropriar-se não de si, mas de outra coisa (...) A perversão é a inversão do sujeito, a pornografia é a substituição do objeto”. Esse capítulo desvela o velho, casado com quatro filhas, quando ele prostitui (não de uma Profissional do Sexo) a jovem, solteira, analfabeta como “apropriar-se de outra coisa, do objeto”, transforma-a em coisa, objeto. O capitulo se divide nos seguintes tópicos:

Frieza física – perversões da libido (abuso), a partir do simbolismo de determinadas culturas, “... se deparar com as varias possibilidades de requintar sensações e assim estimular aspirações, belezas e deleites do sexo, o humano conheceu também a obscenidade: o corpo podia ser associado à carne, ao mundano, a grosserias e imundícies. Tal percepção responde pela presença de ajuizamentos morais na história da sexualidade humana” (as dificuldades dos professores de arte que experienciei).

Há um subtópico fantástico, Nudez de corpo e de olhar,” A tentativa moral de civilizar controlando a sexualidade é outra forma de abuso (...) A nudez humana não é mais revestida de sua pureza, ela requer interação com malícias – doces malícias” em A flor da pele Chico Buarque ilustra perfeitamente esse tópico.

Defloração emocional – pornografias da intimidade (assédio). Aqui a citação do Talmud Yoma 29a (mil e quinhentos anos) é alusiva ao categórico: “Não é não”. Inclusive, o não é não, da jovem, pobre, semianalfabeta, que ignora esse assédio.

Defloração intelectual – pornografias do gênero (fetiche), Ketubot 65a, do Talmud, um rabino frente a um depoimento que aludia à intimidade de um amigo fica excitado e “convulsivamente, volta correndo para casa a fim de ter relações com sua mulher”, ilustrando “de que o erótico, aqui, não é libidinal, uma excitação física, mias que ele se origina na esfera intelectual”.

Frieza espiritual – perversões da nubilidade (promiscuidade), um jovem busca uma prostituta e essa lhe oferece o melhor. No entanto, o jovem dá “uma brochada que nasce de uma nova dimensão da sexualidade”. A partir disso, a prostituta também “brocha” e então ela vende tudo  os dois entram em estado d nubilidade, onde todos os aparatos usados pela prostituta se apresentam na cama dos nubentes. Aqui é tratado a ideia do sexo responsivo, aquele pelo qual na nubilidade, não perde a “promiscuidade”, “desafio de qualquer casamento, independente de sua longevidade, amadurece e se torna o desejo de um virar um’”.

E por final, o Apêndice, parte que me apaixonei, pois Nilton Bonder, traz enxertos do Talmud, mil e quinhentos anos, onde ratifiquei a milenar honestidade intelectual dos rabinos.Com os comentários de Nilton Bonder, divide-se em:

1 - Sexo e incontinência, Talmude Hag, 16a, “Por mais que as construções morais, os costumes e a sociedade estabeleçam regras para atender a valores em ‘Nome dos Céus’, expedientes de escape ara o indomável devem ser disponibilizados. Reprimir é como jogar combustível na já inflamável essência do desejo”

2 – Sexo e estupro, Talmude Hag 9a, “De maneira sagaz, a mulher consegue demonstrar que, que quando se trata de sexualidade, nenhuma experiência meramente sensorial pode atenuar a violência e o abuso sofridos (...) O corpo humano pertence exclusivamente ao seu sujeito, e quando alguém desrespeita isso, fere profundamente a existência (...) uma mulher não é um corpo que responde a excitações, mas uma consciência que o habita”.

3 – Sexo e intimidade temporária, Yoma 18a, “”Encontros que se constroem como uma experiência única podem conter a eternidade da entrega que fazem acontecer, chegando a ser um evento perene num único dia. ‘Até que a morte os separe’ são lembranças para a vida inteira que podem ser deflagradas numa experiência singular”.

4 – Sexo e tamanho, Talmude B.Mts., Remete-se ao tamanho do pênis “E o maior atributo desse trecho bizarro do Talmude é reconhecer a fisicalidade inerente ao sexo. Sem embaraços e de forma direta, a passagem indica o corpo e sua nudez como aparatos essenciais ao sexo. Apenas por sua apropriação a sexualidade pode ser representada. Daí a importância de acoplagens e encaixes, típicos do que forma e corpo”.

5 – Sexo e etiqueta, “Na sexualidade, mesmo as permissões mais invasivas e ousadas são experimentadas num espaço de consentimento, não de uso (...) Nada é sujo ou indecente na sexualidade se os parceiros estiverem disponibilizando e franqueando seu corpo mediado por uma refinada afirmação de autonomia”.

6 – Sexo e traição, Talmude Meg.12a, “Essa curiosa passagem deseja revelar que se existe a semente da infidelidade, ela existe para ambos os congêneres (...) A deslealdade do adultério não é para com o outro, mas para com a natureza contratual da nubilidade”. Nesse enxerto complemento com o depoimento de uma garota de programa, em que ela diz: os homens me procuram para não traírem suas namoradas ou esposas, ou seja, não trair o afeto, o sentimento. Ao passo que, fora da prostituição, apaixonar-se, afeiçoar-se por outra companhia, pois gera nova nubilidade e amplia exponencialmente a traição.

7 – Sexo e frequência, o Talmude regulamenta a frequência conforme a disposição com o trabalho. Quem trabalha na mesma cidade, duas vezes por semana. Em outra cidade, uma vez. Marinheiros ausentes, pode ser uma vez a cada seis meses. E alerta, nos casos comuns, privar a esposa por mais de uma semana estabelece jurisprudência para iniciar o divórcio. Nesse enxerto complemento que fora do judaísmo, ou qualquer imposição religiosa, a frequência e disposição diz respeito a cada um, ao seu ritmo, a sua predisposição, e no caso dos civis, diz respeito a sua individualidade pois o sexo não está vinculado a rituais nubentes, mas a existência cotidiana.

8 – Sexo e culpa, Av.Zara 17A, esse enxerto carece de sua introdução: “Dizia-se que Rabi Eleazar bem Dordia não perdia uma única prostituta no munda sem que tivesse relações sexuais”. Faço uma piada: vivia endividado. Aqui o convívio do judaísmo com a prostituição, entendendo-a como pecado e mundana, e com isso, a busca do perdão pela fraqueza. Destaco, isso no contexto religioso, na vida civil não há essa culpabilidade. Na religião o sexo é simbólico, espiritual, núbil, na vida civil ele é concreto, material, de dois.

9 – Sexo e autoconhecimento, Kid, 81A, “As pessoas que conhecem sua excitação podem ficar mais relaxadas. Aquelas que, no entanto, têm propensão a cálculos e cogitações, essas precisam se antecipar para não ultrapassar o ponto do não ‘retorno’”. Inclusos aqui todos os machistas.

10 – Sexo e receptividade, Talmude Nr,20A, “A receptividade ao sexo é algo que vai se construindo num processo que não depende da puberdade. Uma mistura de ocultamentos e interditos vai trançando uma intricada relação entre o olhar e nudez, a tal ponto que fica nítido o momento em que (...) algo vira intrinsecamente desejável”.

É isso. Essa abordagem do rabino Nilton Bonder, entrelaçada pelo judaísmo, se pôs em diálogo com a minha abordagem ateísta, e elas se entrelaçaram. O bom e velho sexo, origem da espécie Homo, há dois milhões e meio de anos, nos separou como espécie ao desenvolver o pensamento simbólico complexo estruturando a linguagem gestual, oral e mais tarde a escrita, considerando as diversas formas de representações, negando-o, demonizando-o, mas como referendam Nilton Bonder, nesse livro e Chico Buarque, em O que será/ A flor da pele: “O que não tem vergonha, nem nunca terá/ O que não tem governo nem nunca terá/ O que não tem juízo”

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Filha, Mãe, Avó e PUTA – A história de uma mulher que decidiu ser prostituta.

A biografia e profissão de Gabriela Leite são um alento para os que são chamados de “filho da puta”. Sim, Puta, ou Prostituição, nada mais do que uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (Classificação Brasileira de Ocupações - CBO nº 5199-05, "profissional do sexo"). Sim, para os dois sexos. No entanto, a atividade funciona de forma informal, pois ainda não possui uma regulamentação trabalhista específica aprovada no Congresso.

Ela organiza o livro em capítulos interessantes, como mandamentos da prostituição, com subtópicos pontuais. E começa com um prefacio muito bom:  A grande lição. “Adoro homens. Gosto de estar com eles, e não conheço homem feio. Todos são bonitos: cada um com seu cheiro característico (...) Outra coisa que adoro é falar o que eu penso (...) Existe uma terceira coisa que eu prezo (...) É a liberdade (...) acredito que também ajudei um sem-número de prostitutas a ter uma vida mais digna”

O Primeiro mandamento da puta: serás discreta. Jamais apontarás um homem na rua e dirás que ele é teu cliente. Aqui ela cita uma experiência com drogas, por curiosidade e tentar ser mais produtiva. Surtou e descreve “eu vi o que estava acontecendo comigo (...) Muitas meninas chegaram a bater em seus clientes (...) Resolvi parar”. Com isso, conseguiu bater papo com seus clientes “Cliente não se trata como namorado (...) Mas dar ouvido a eles e saber p que gostam e o que querem (...) não são conhecedores da sexualidade feminina (...) Eles sabem de suas vontades urgentes e suas fantasias (...) tratadas como algo a ser escondido, uma fraqueza que não deve ser dividida com ninguém (...) Inclusive e principalmente com as mulheres que eles amam”.

Em seguida, “As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios” - Ana Cristina Cesar. Aqui ela conta a história de seus pais. Do amor que ela tinha pelo pai, “Boêmio, fanático pelo seu trabalho, elegante e perfumado”. Sua mãe, “indígena, trabalhou da roça, nunca foi à escola (...) Aprendeu a costurar (...) e foi assim que muitas vezes – quando meu pai desaparecia por meses – ela conseguiu manter nossa casa de pé sem nunca faltar nada”. Aqui ela discorre sobre seu primeiro ato de rebeldia, ficar conversando depois da escola, seu primeiro emprego, as paixões escolares, o primeiro namorado, o curso pré-vestibular e entrar na universidade

E, “A porta da verdade estava aberta. Mas só deixava passara meia pessoa de cada vez... Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso”. – Carlos Drummond de Andrade. Fala do Samba que invade São Paulo. O SEXO SIMPLES. E RÁPIDO, com o primeiro homem que a tratou como mulher,  mas não o homem que mais amou. O GRAVEMENTE GRÁVIDA e o SEGREDO QUE NÃO ERA SEGREDO. O PEDÓFILO DA FAMÍLIA, um parente próximo chamado para conversar e lhe aconselhar e que a bolinava. FRÁGIL DEMAIS PARA RECLAMAR, sua mãe respeitou a decisão de não revelar o pai da criança. Em o FIM DO DILEMA, descreve a decisão de abandonar a filha, quando a mãe, reguladora, recebeu-a com as malas, com a famosa frase: “ou age como eu quero ou não mora mais aqui”. Segue então EM BUSCA DA LIBERDADE DESCONHECIDA, “sem ter para onde ir nem amigos a quem procurar, fui para a rodoviária da cidade”. PLINIO MARCOS, O TODO-OUVIDOS, “ia passando com seus livros mimeografados e parou para me cumprimentar (...) Melhor ainda foi ouvir do Plínio que eu não era uma mulher sem futuro”. PRIMEIRO CLIENTE, SEGUNDO CLIENTE, TERCEIRO... “Sentei na cama e fiquei olhando para o homem sem saber o que fazer”.

Segundo mandamento: não beijarás na boca. Beijo na boca é afetivo, só o darás a quem queres. HOLLYWOOD NA BOCA DO LIXO, “Entre o bar Redondo e o luxuoso hotel Hilton havia uma boate de prostituição extremamente chique: La Licorne (...) A movimentação das mulheres começou a chamar minha atenção (..) Entravam na boate e eu ficava imaginando o que acontecia lá dentro (...) Percebi que, se eu quisesse, poderia mudar radicalmente de vida”. A BOCA DO LUXO E A BOCA DO LIXO faz um paralelo entre as casas de prostituição glamourosa e a do dia-a-dia, em que na primeira se dormia durante o dia e brilhava à noite e a segunda ralava durante o dia e fechava à noite. Gabriela era da Boca do Lixo. Em MUNDO CÃO expõe suas contradições sobre o trabalhar na prostituição. Em UM GRANDE (E DOLOROSO) FAVOR expõe uma situação de humilhação num dos prostíbulos, que ao chegar, passou à frente na fila e o porteiro a esbofeteou indicando para ir para o fim da fila, o que a fez trocar de local de trabalho. Aqui nesse tópico, ela descreve que ao chegar no prédio para trabalhar pela manhã, década de 70, a fila de homes esperando no elevador era imensa. Em TRABALHO IGUAL, ENDEREÇO DIFERENTE é decorrência do ocorrido e a qualidade do atendimento e normas eram diferentes.

Terceiro mandamento: não terás cafetão. Não cairás nesta cilada, sob pena de acabares na sarjeta. FORA DA LEI SEM SER, ela diz “ Apesar do nome, o cafetão não tem nada a ver com a chamada cafetina, que seria preferível chamar de empresária da prostituição (...) Há muitas décadas do gigolô reinava como uma espécie de parasita, que aproveitava da fragilidade, do medo, da solidão da mulher que trabalhava à noite para explorá-la”. DE PUTA A PROPRIEDADE expõe essa dependência da mulher com os cafetões que se propunham a guardar o dinheiro delas em espécie, para não correrem o risco de serem assaltadas. Aí, eles as assaltavam inventando taxas e gastando seu dinheiro. UMA SOLUÇÃO CHAMADA VELUDO, policial civil, da delegacia de costumes, Veludo, era amigo das cafetinas e prestava favores aqui e acolá, e ajudou Gabriela a se livrar de um cafetão que a explorava com ameaças, inclusive. Importante citar aqui, depoimento de uma Garota de Programa, existe crime organizado que diz-se para proteção delas, agindo inclusive com extorsão de clientes, caso elas se sintam lesadas, produzindo uma indústria da extorsão, da qual algumas passam a fazer parte. Gabriela Leite, como líder das prostitutas trabalhou para que os casos de exploração das trabalhadoras do sexo fossem caso de polícia e não mais ações fora da legalidade, como cafetões, gigolôs e no caso, organizações criminosas. Em O OCASO DOS GIGOLÔS ela ratifica essa exploração.

Isso me remeteu ao início da década de 1980, eu tinha 16 anos, em Criciúma, quando o Padre Valdemir Miotello, da Paróquia São José, hoje Diocese, desenvolvia, no então bairro Maracangalha, zona da cidade, um trabalho errado, quanto a querer tirá-las da prostituição, mas bem intencionado, em livrá-las dos cafetões. A grande briga era com os cafetões que escravizavam as prostitutas cobrando-lhes comissões, seja do aluguel da casa, seja da compra dessa mulher ter sido violentada, engravidado, “ser assanhada” e expulsa de casa ainda criança ou jovem e ter lhe dado abrigo, diferente da Gabriela Leite que escolheu ser prostituta, como hoje as Garotas de Programa. Lembro que fui convidado com violeiro para uma reunião com elas e depois fui tocar violão numa missa no Maracangalha, e confesso nunca ter ouvido pessoas cantarem em louvou com tanta devoção. Lembro de ter tocado e cantado As andorinhas, e elas cantarem felizes. Recentemente conheci um colega de trabalho, que relatou ter ido a Criciúma para estudar e frequentava o Maracangalha, onde as prostitutas namoravam com eles se cobrar. Achei interessante essas histórias se tocarem. Ler Gabriela Leite agora, quando aos 16 anos e ter vivenciado uma história de organização das prostitutas, enquanto Gabriela Leite as organizava em São Paulo e Brasil, encontrar um colega que esteve no mesmo local vivenciando outra experiência.

O Quarto mandamento: não revelarás a fantasia do próximo. A fantasia do teu cliente é secreta e sua identidade jamais poderá ser violada. Em FANTASIAS, UM ANTÍDOTO ela relata sobre os clientes assíduos, e em especial quando tem uma fantasia. Descreve uma, dentre tantas, em que esses clientes “Não nos davam trabalho, pois nem transavam”. Relata isso sem preconceito ou comparação diminuindo-os, mas destacando-os pela educação e que pagavam bem. A EXCLUSÃO DA DIFERENÇA ela relata o atendimento a homens PCD, Pessoa com Deficiência (termo não cunhado na época), e mesmo sendo difícil transar com eles pelas limitações que cada um apresentava, eram atendidos com respeito. Fruto, claro, do processo de se desintoxicar do sentimento de repulsa, nojo ao deparar-se no inicio com PCD e perceber que tinham seus sentimentos, suas necessidade, e então se perguntar: “ Meu Deus, que tipo de mulher sou eu?”. Em UMA TREPADA CORRESPONDE A QUANTOS TIJOLOS?  Referente ao objetivo maior que toda prostituta tem em comprar a casa própria, assim ela e as amigas, no qual ela cita “ser difícil fazer uma amiga na zona”, referenciavam o “valor de cada homem representa uma quantidade de tijolos”, ou seja, “estão sempre ligadas em ganhar o máximo de dinheiro e gastar o mínimo (...) elas não se divertem”. A ZONA COMO LAR, unir o útil ao agradável, morar no local de trabalho, não pagar duas vezes. NA MIRA DA DITADURA, década de 70, elas foram submetidas ao toque de recolher. Ninguém na rua após as dez da noite, bem como a presença de policiais monitorando e invadindo as zonas solicitando documentos e agredindo clientes sem nenhum motivo.  Cita o desaparecimento de duas meninas que entraram no camburão e nunca mais foram vistas. Decidiram fazer “uma manifestação, se organizaram por áreas, articularam-se donos de bares, garçons, cafetinas, malandros, travestis...a Boca do lixo e a Boca do luxo se juntaram em nome das prostitutas”.

No Quinto e mais importante de todos os mandamentos: não te apaixonarás pelo teu cliente, O PRÍNCIPE VIROU SAPO ela conta da relação com um cliente, do envolvimento, mesmo que não paixonite, mas que acabou em uma gravidez, que por ser católica não procurou uma clínica de aborto. Quando contou para o dito cujo, transformou-se em sapo de verdade. Achei significativo e desenvolvo um conceito pessoal a partir dele. Essa é a função da (o) profissional do sexo: não gerar dependência afetiva em ambos e tão pouco, dependência erótica. A prostituição o produto é o sexo sem o vínculo afetivo, mas para que o sexo aconteça, a empatia é fundamental. O respeito entre ambos, as carícias, um pequeno diálogo, o olhar, são técnicos da profissão e verdadeiros no objetivo do prazer. A prostitua não precisa ter o orgasmo ou prazer, mas conhecer as técnicas de produzir prazer. No caso da Gabriela, ela tinha prazer em ser prostituta. UM PRESENTE FELIZ em relação a gravidez, passou a trabalhar menos, a dona do quarto liberou o pagamento da diária. Foi bem cuidada pelas meninas com uma gravidez tranquila. Observo a solidariedade entre as putas, no caso da Gabriela, a atenção e carinho, correlata a qualquer família com laços afetivos. CARINHO EM DOSE TRIPLA aqui ela só complementa toda atenção, nesse o dia do parto no hospital e o retorno do sapo, sua então assiduidade, mas ela não se dirigia a ele. Fim do período de resguardo voltou para zona.

Sexto mandamento: não sairás da zona para morar com o cliente.  UM ABSURDO TENTADOR Convidada pelo sapo foi morar com ele e aceitou feliz como uma Cinderela, e precisava se preparar porque sua vida ia, de novo, mudar radicalmente. CINDERELA ESPATIFADA, não deu outra. O sapo continuou sapo e ela, arrumou a mala de novo e desta vez partiu para Belo Horizonte, voltar a ser puta.

Sétimo mandamento: terás ética. Nunca misturarás diversão e trabalho, mas deverás desfrutar das duas coisas. Nesse capítulo ela entre um tópico e outro, comenta culinária e cultura mineira em Belo Horizonte, ou seja, puta também observa, sente gostos, olha arquitetura, identifica culturas. NOS PASSOS DE HILDA FURACÃO ela descreve com romantismo a ícone da Zona Boêmia de Belo Horizonte. E desorientada por sair de São Paulo sem perguntar a ninguém onde ir, escreve “Ir embora talvez fosse mais importante do eu chegar”. Por não saber, perguntou ao balconista da lanchonete onde ficava a zona e ouviu a eterna frase que escutou até o fim de sua vida: “Mas o que uma moça tão distinta como você vai fazer na zona?”. Escolada respondeu: “Trabalhar”. E depois teve que se acostumar a outra frase preconceituosa: “Mas você não é uma prostituta norma, você fez faculdade de filosofia, você é branca...”. A CAPITAL DO PAPAI-E-MAMÃE. “Onde os mineirinhos são loucos, loucos por uma rapidinha” e observou o quanto os hotéis iam enchendo na hora da saída do trabalho. Disse que numa semana na Zona Boêmia de Belo Horizonte, uma semana de trabalho é equivalente a um mês em São Paulo. A POLÍTICA COMO AFRODISÍACO. No dia em que Tancredo Neves ganhou as eleições para governador, em 1982, ela “trabalhou sem parar, atingindo a marca de setenta e oito homens naquele dia. Brinco agora com o velho ditado: lavou a tica, literalmente. MAIS DIVERSÃO DO QUE TRABALHO Interessante que aqui ela descreve a gênese do delivery, “Se você pagasse, por exemplo, um rapaz fazia a entrega do seu almoço no hotel Catete”. E um alerta importante para hoje, em que a população é vítima das BETs. À noite ela trabalhava num cassino e graças às orientações do pai, excelente crupiê, de que “A máxima do jogo é a seguinte: Se você tem medo de perder dinheiro, não jogue. Porque você vai perder”. AMOR (E PROSTITUIÇÃO) ENTRE IGUAIS.  O lesbianismo entre as prostitutas. “E um acordo muito legal entre elas: amor com mulher, sexo com homem”. Mesmo se sentindo um peixe fora d’água, ela não se sentia constrangida entre as iguais. CHEGADA À CARIODA e ENFIM, COPAGABANA descrevem a transição natural dela para o Rio de Janeiro. ELE NÃO GOSTA DE PUTA, PARA NAMORAR. Com a mesma sensibilidade quanto as gostosuras do Rio, a dificuldade era namorar alguém com a sua profissão. Ninguém queria. E foi chamada a atenção por uma amiga: “Não está escrito na sua testa o que você é, para que dizer?” Mas que também era a primeira vez que ela estava num ambiente fora da boemia, onde os homens boêmios namoram prostitutas e prostitutas namoram homens boêmios. Fora dali, era sair do isolamento. Também ela observou que pela primeira vez em onze anos estava de férias, mas com pessoas que pertenciam “ao mundo comum”. ATRÁS DA ZONA DOS BRASILEIROS, pela primeira vez ela estava bronzeada e decidiu ficar e trabalhar no Rio. Encontrou uma zona e foi barrada por ser mulher branca, pois a zona era especializada pela preferência por mulheres negras e mulatas, para atender os turistas estrangeiros, transformando Copacabana num gueto à beira-mar. Defrontando-se então como conceito de Zona para brasileiros só restavam “mulheres no bagaço e bandidos”.

Escutei de uma Garota de Programa certa vez, que os clientes mais jovens a procuravam para não trair a namorada. Sim, buscavam sexo e não afeto.  No namoro, o sexo com afeto era com a namorada. Isso me lembra um caso interessante: a prostituição passiva, aquele que a Gabriela Leite indica como desejo dos clientes. Explico. A prostituição profissão existe para que (agora vou ser incisivo em função da hipocrisia) a filha com vinte anos, de uma família pobre, semianalfabeta, emoções não desenvolvidas, ensinada pela mãe que mulher não precisa estudar, nunca leu um livro, dependente emocionalmente, seja prostituída por um homem, catarinense da sociedade, servidor público, quarenta e quatro anos, velho, casado há vinte anos na igreja, quatro filhas entre dez e vinte anos, que só vai tê-la para sexo, nada mais e descartá-la como lixo a cada trepada e voltar para sua esposa (burra, claro) e ser pai da filha de vinte anos, enquanto a filha dos pobres da mesma idade ele prostitui, agora não como profissão, mas como objeto que usa e descarta. Destaco nesse caso que o senhor, rico, velho, de bem, só tem crise matrimonial e com novinha, que ele domina pela burrice emocional dela, porque mulher de verdade ele não é macho para encarar, e nesse caso, e é frouxo para encarar as profissionais do sexo.

Uma outra Garota de Programa me contou que um cliente após o serviço perguntou porque ela bonita e nova estava "fazendo aquilo"? Ela riu e respondeu: porque você está aqui. Se os homens não procuram a prostituta não trabalha. Rimos. 

Oitavo mandamento: cobrarás. Dentro da zona jamais poderás receber um cliente sem que ele pague por teus serviços.SE ALGUÉM QUER MATAR-ME DE AMOR, QUE ME MATE NO ESTÁCIO. Local de trabalho Vila Mimosa, uma formosa Zona, depois de passar de ônibus e descer num lugar horrível, andar um pouco mais e deparar-se com uma rua linda.  O PRIMEIRO CARIOCA A GENTE NUNCA ESQUECE e ASSIM FALOU VERA ela discorre sobre o adaptar-se as condições daquela zona, seus procedimentos e transitar entre uma casa e outra para escolher um bom local de trabalho.

Nono mandamento: desconfiarás da cafetina. Por mais que a dona da casa seja boazinha, não poderás ficar na mão dela. Terás que mostrar, com educação, que tu também és esperta. Esse é um capítulo mais extenso e como segue a cronologia, é o capítulo da em que Gabriela está mais consistente com os anos de prostituição e com um entendimento dos caminhos que construiu e na vida e continua construindo. PECADILHOS DE ISAURINHA ela fala sobre uma cafetina especial, empreendedora e qualificou seu processo de aprendizado. SAMBA SEM COMPROMISSO, “depois de muitos clientes, muitos papai e mamãe, um ou outro sexo oral é ora de um banho e ir para o samba até o amanhecer”. AMANTE E AMIGO mais um de seus namoros gostosos e respeitadores de sua profissão. PORTAS FECHADAS às visitas dos familiares e filhas, que não acompanhava o desenvolvimento, a deixavam deprimida por não aceitarem seu modo de vida e profissão.UM SONHO POSSÍVEL OU UTOPIA?  O início pensar “num modo de organizar politicamente as putas para lutar contra o estigma, a violência policial, o descaso das  cafetinas e muitas outras questões que envolvem nosso trabalho”. UM AMOR COMO PERDIÇÃO relata brevemente a história de “, D Vilma, uma prostituta que virou cafetina, sonho maior de nove entre dez prostitutas, que ficou na rua da amargura que se encantou por um malandro que pegava todo seu dinheiro para comprar cocaína”. PAU GRANDE, NARIZ MENOR AINDA ela faz graça com um namorado que teve, nas mesmas condições de D. Vilma, só que ela cortou o barato a tempo e o cara para se impor, falou de seu pau grande que ela não teria mais. Para ela um incômodo, que não satisfaz muitas mulheres, mas não valia a pena, porque mentia para cheirar cocaína. NA MÃO DOS TEMÍVEIS HOMENS DE BRANCO  quando teve um problema de saúde grave, e sua impetuosidade não aceitou os procedimentos médicos, saindo do hospital e tendo que retornar e submeter-se ao tratamento. E A PROSTITUTA FALOU quando ela, participou do primeiro Encontro de Mulheres de Favela e Periferia. E se apresentou como prostituta e se deparou com o tabu que perdurava entre as mulheres conscientes. TOQUE DE MIDIA e “foi só começar a falar para descobrir que tinha muita gente querendo ouvir”. AMOR DE RENÚNCIA quando começou a aparecer na mídia, o pai de sua filha, abriu um processo para pedir a guarda da filha. Ela sugeriu que a criança eram as amigas que então cuidavam. O pai ganhou a guarda, com a orientação do juiz de que “ele tivesse pela menina tanto amor quantos nós três tínhamos”. A elas dado o direito de “ver e passar os finais de semana com a menina”. O INICIO DE MAIS UMA BATALHA. Muito calor de dia não dava para trabalhar dado o suador desconfortável dos clientes. Ela observou que crianças brincavam num campo abandonado do metrô e comprou aquarelas e lápis de cor e ia brincar com as crianças. Um funcionário do Banco da Providência, da Arquidiocese do Rio, observou sua atividade e ofereceu uma sala desativada para brincarem lá. Sem querer, mesmo já sendo conhecida na mídia, começou um trabalho social. NEM JESUS CRISTO SALVA, com isso, as mulheres católicas começaram a implicar com sua presença, vendo-a como mau exemplo para as crianças, que até então, as católicas não faziam nada por elas. TERRITÓRIO DIVIDIDO Leonardo Boff a procurou na zona e levou um monte de comida para fazer uma Santa Ceia com as prostitutas. O convite foi para trabalhar com a Pastoral da Mulher Marginalizada, eufemismo para prostituta. Aceitou, mesmo não sabendo o que era pastoral e tão pouco ter fé católica. A PALAVRA PROIBIDA claro que prostituta não era um termo aceito, no lugar usavam menina. SAUDADE DA INOCÊNCIA ou ingenuidade. Aprendeu a discernir os cafajestes, seus sonhos de Cinderela da realidade. VIOLÊNCIA O X DO PROBLEMA. Convidada para um debate sobre sexualidade, conheceu um coordenador do Instituto de Estudos da Religião, ISER e foi consultada se queria sistematizar o seu trabalho. Com certeza, começou a participar do ISER  produziram o Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas.

Décimo mandamento: Terás orgulho da tua profissão e usarás camisinha.DO ESCONDERIJO AO ESTRELATO. Não é o estrelato hollywoodiano, midiático, fama de quinze minutos de Andy Warol, mas o estrelato de estar inserida no debate, no assunto, nas soluções, não na sociedade. Esta “sociedade” é excludente. Assim a profissão sai do gueto do vitimismo para o protagonismo. Da opção de vida. Das pesquisas acadêmicas de vítimas da sociedade para a profissão prostituta. Esse movimento surgiu antes do PT, antes da responsabilidade social e olhar para as minorias. Surgiu da concretude da vida, da existência da prostituta e da organização em nome de uma profissão. O identificar indicadores desde violência, analfabetismo aos cuidados com a saúde, distante do caridoso hipócrita “precisamos salvá-las”, enquanto os senhores de família, ricos, na covardia de não pagarem por sexo, prostituem as filhas jovens dos trabalhadores sob as psicovardes crises de casamento, idade dos bananas frouxos. DECADÊNCIA SEM ELEGÂNCIA. Relata a criação com outras colegas da primeira Associação de Prostitutas do Brasil, paralelo à transformação do Rio em lugar do crime organizado, tráfico, e com isso, no surgimento de ladrões e assassinatos. A zona não ficou em decadência pela trabalhadoras do sexo, mas entrou em decadência junto com a sociedade pelo crime organizado, lavagem de dinheiro, drogas. Foi quando então “a Zona virou uma zona”. DE VOLTA AO LADO A. Nesse contexto, Gabriela foi se afastando, a zona, não a da prostituição, mas do crime organizado, passou a não ser mais o seu lugar. SOS VIAL MIMOSA. Ao sair da vila, foi procurada pelas cafetinas para ajuda-las. Um pastor, começou a expulsar clientes e prostitutas, mediante a força, contratando capangas armados. Ela, então, junto com pastores, padres, imprensa e outros segmentos, fizeram uma celebração ecumênica e o pastor se comprometeu publicamente a não mexer mais com as prostitutas. UMA DOR SEM TAMANHO. O falecimento de seu pai.  A VOLTA DA POLÊMICA DO NOME. Em torno da sua legitimidade como prostituta, por ser branca, ter formação universitária.

“Tudo parece ousado para quem nada se atreve” – Fernando Pessoa. Com a mesma estrutura dos outros capítulos, que não usarei aqui, Gabriela descreve sua ousadia, em comum com suas companheiras prostitutas, em criar a ONG Davida, a grife DASPU, como alta costura, a grande sacada em parafrasear a famosa grife DASLU da alta sociedade e que estava em voga dado ao seu envolvimento em escândalo de lavagem de dinheiro. Cito somente o último tópico HORA DE ANDAR PARA FRENTE em que ela reflete “...nunca conheci uma puta que largasse a profissão por não gostar dela. A igreja misturou muito sexo com o amor. Sexo é da via. Amor é egoísta, é do indivíduo (...) Como fantasia, o desejo de ser puta acompanha todas as mulheres, na cama ou na imaginação. Mas como profissão é outra coisa, O que a puta tem que as outras mulheres não têm? Nada. O que as outras mulheres têm que a puta não tem? Nada. (...) Na Grécia, as mulheres não eram nada porque os homens adoravam transar entre si. Mas existiam um mulheres respeitadíssimas, que eram prostitutas. Elas eram preparadas intelectualmente para conviver com os homens. Sabiam filosofia, artes, ciências”.

Gabriela Leite é a personificação de Folhetim, de Chico Buarque de Holanda: "Mas na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim, pois já não vales nada, és página virada, descarda do meu folhetim". Cumprindo assim a gostosa função do sexo, ser vivido ou pago com "uma prenda, como uma pedra falsa, um sonho de valsa ou um corte de cetim" daquele perene/eterno enquanto dure, e libertar ambos da eterna moeda/prisão/para sempre da dependência afetiva e erótica e status social.

Infelizmente, em 2013, ela faleceu de câncer aos 62 anos.

sábado, 25 de maio de 2024

Homenagem ao povo de Parobé

Numa conversa rápida no Messenger, no Facebook, minha amiga, diz que seu pai escreveu um livro e se eu não gostaria de adquiri-lo. Imediatamente aceitei. Em poucos dias recebi o livro com dedicatória do autor, pré-escrita, e com uma dedicatória dela; “Com carinho, ao meu amigo de muitas lutas pela educação. Marlene Damian”. 

Antonio Damian, o Tone, é um exemplo do quanto é significativo a formação do saber ler e escrever. Num momento delicado para todos nós, a pandemia da COVID-19, ele ocupa seu isolamento para escrever suas memórias. Assim como muitos fizeram. Escreveram, pintaram, música, bordaram, veicularam na internet suas ideias e assim novas vozes apareceram. Seu Tone, aos oitenta e cinco anos nos presenteia trazendo pessoas, expressões culturais, religiosidade e paisagem de Parobé e seu entorno, no município de Laguna.

Li, melhor, devorei o livro em duas horas. Uma linguagem fluída, com relatos escritos como uma contação de histórias. Seu Tone relembra as famílias e formação das comunidades, o comércio e serviços, os costumes, as construções, a saga de camarões, moradores que participaram da gestão pública, as diversões, a natureza, eventos, fatos e curiosidades, a escola, as brincadeiras das crianças e adolescentes e aventuras, histórias e causos.

Enquanto lia o livro, identificava sobrenomes de conhecidos, pensando em suas árvores genealógicas; histórias para pesquisas de historiadores nas áreas da Antropologia, Arquitetura, Artes, Educação, Geografia, História, Meio Ambiente e outras.

 

O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado

O livro de Michael J. Sandel (recebi o livro como promoção pela inscrição no Instituto Conhecimento Liberta – ICL) é a visão de um estadunidense. Traz reflexões a partir de pesquisas nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, portanto, a partir de sua cultura e referências bibliográficas anglo-saxônicas. Tem uma visão capitalista para sanar os problemas do capitalismo. Sim, ele não cita o comunismo ou o socialismo como soluções para os limites morais do mercado. Reflete o que o dinheiro não compra, sem indicar porque o dinheiro compra, emergindo assim com o triunfalismo do mercado: tudo está à venda.

Ele cita, dentro do capitalismo e mercado, exemplos como comprar um lugar para esperar na fila. Todos sabem que a ética da fila é um modelo sagrado de ordem de quem chega primeiro conquista o lugar, no entanto, foi criado um negócio das filas, transformando o lugar sagrado de chegar na fila, em eu pago para alguém ficar na fila. Cria assim os cambistas de consultas médicas, que vendem seu trabalho de ocupar o lugar na fila.

Outro exemplo que ele cita, é a iniciativa de esterilizar mulheres viciadas com o incentivo de trezentos dólares para elas não procriarem, evitando que crianças já nasçam propensas ao vício. Essa iniciativa teve as críticas quanto a visão econômica da vida, remetendo a que ponto chega o limite do mercado.

Ele destaca a troca de presentes por vales-presentes, indicando a incapacidade de dar um presente em troca de um valor para ela comprar o que quiser, evitando assim a possibilidade de errar o gosto, o número ou a forma do presente.

Interessante é o que ele cita dos bolões da morte em que empresas compram seguro de vida dos funcionários, instituindo a si mesmas como beneficiárias. Explorando os funcionários em seu trabalho e apostando e lucrando com sua morte, alegando ser um investimento. O nome deste investimento é conhecido no meio como Seguro do Zelador ou Seguro do Camponês Morto. Dentre as empresas que compravam apólices em nome dos empregados estão a Nestlé USA, Walmart e Walt Disney. Bancos também fazia parte destes investimentos.

Cita a venda de órgãos, de sangue, um amigo, um prêmio Nobel, um troféu de um campeonato como relações do limite moral do mercado e que não pedem ser comprados.

Há mais exemplos de comercialização e não comercialização que nos fazem refletir, a partir de um ponto de vista dentro do capitalismo, sobre os limites morais do mercado. Faço um destaque importante: o autor não considera a transformação social das relações de trabalho e capital como o sistema comunista e socialista.

segunda-feira, 13 de março de 2023

2º livro judaico dos porquês?

O Rabino Alfred J. Kolatch cumpre o que propõe: aprofundar as questões do 1º livro judaico dos porquês. Como no primeiro livro, o 2º Livro Judaico dos Porquês e desenvolvido a partir de perguntas muito interessantes, expondo nas respostas as visões dos judeus Ultra-Ortodoxos, Ortodoxos e Reformistas.

Com uma boa Introdução Geral nos contextualiza a Era Talmúdica sobre Os sábios do começo do período Talmúdico (Talmud, Ensinar, Instruir e Aprender - inserção minha), pag. 4 e os Sábios pós-talmúdicos posteriores, pag.8. Desenvolve algo que observei entre os rabinos que é a Elasticidade da Lei Judaica, pag. 9, ou seja, a democracia de suas teses talmúdicas, isso entre os séculos Anteriores a Era Comum até os séculos da Era Comum. Sim os judeus não leem o tempo como antes e depois de Cristo.

Referenda os Princípios da Lei Judaica, pag.11, citando que “os Rabis do Talmud se empenhavam no processo de interpretar a lei judaica para que atendesse às necessidades do indivíduo e da comunidade em geral, alguns princípios da lei judaica evoluíram, e quatro dos quais são citados neste livro”, págs.. 11-12. São eles: 1 - Princípio de Salvamento de uma vida, “Tão relevante é o princípio de salvar uma vida, que os rabinos não hesitaram em declarar que ‘Picúach Néfesh’ tem precedência sobre o Shabat”pag.12; 2 - O principio do obstáculo, “conhecido em hebraico como lifnê iver ló titen mechs’hol, teria aplicação na discussão sobre a propriedade de se induzirem pessoas a cometerem atos ilegais, das quais elas são suspeitas, para fazê-las cair em uma cilada e depois conduzi-las a julgamento”, pag.14; 3 - O princípio do Fator de Aparência, “Este princípio, conhecido em hebraico como marit áyin (literalmente, ‘o que o olho percebe’), refere-se especificamente a obter uma falsa impressão a partir dos atos de outra pessoa”, pag.14; e o Princípio da Boa Vontade, “Na lei judaica, certas atitudes são proibidas mishum eiva, ‘por causa do ódio (que causariam)’. Tais atos têm o potencial de causar desarmonia entre as comunidades judaicas e não judaicas”, pag.15. 

O livro dividido em 10 capítulos. Uma pergunta interessante se apresenta no capítulo 1, Quem é Judeu? Quem é um bom Judeu?: Por que o filósofo judeu Baruch Espinosa foi excomungado da comunidade judaica? Dentre a longa resposta diz que ele “Fez da razão o seu deus e rechaçou toda crença baseada em superstição ou argumentos falaciosos (...) Espinosa não aceitou a suposta origem mosaica do Pentateuco e criticou suas contradições internas” pag.63. Convém destacar que mesmo com a excomunhão de Espinosa, para os Judeus nunca deixa-se de ser Judeu.

O  capítulo 2, Judaísmo e Cristianismo é repleto de perguntas muito interessantes e não cabe destacar nenhuma, apenas a condição de que para os judeus o Messias ainda não chegou.

No capítulo 3, Judeus em um Mundo Gentio, é muito engraçado pois, ao mesmo tempo que ao judeu é mais gratificante por lei atender a um gentio, também destaca-se o não misturar-se para evitar que se tornem enfraquecidos.

No capítulo 4, Casamento, Casamentos mistos e Conversão, na introdução o autor destaca que “O laço que une os judeus uns aos outros não é o sangue, mas um amplo espectro de ideais, leis, costumes e tradições” pag.119. Assim, uma das perguntas do capítulo é “Por que os convertidos são considerados judeus plenos mesmo que não tenham sangue judeu? A resposta é: O judaísmo não é uma raça, mas uma comunidade unida pela religião, cultura, idioma e outros interesses”, pag.135. Essa condição é desenvolvida no livro Os judeus e as palavras.

No capítulo 5, Aspectos Pessoais a primeira frase da introdução é significativa: “Na tradição judaica, o corpo de um ser humano é considerado de máxima importância, principalmente porque ele aloja a alma dentro de si, e por isto, deve ser mantido limpo e saudável”, pag.150.  “O Talmud afirma que aquele que salva uma só alma de Israel, as escrituras consideram como se tivesse salvo o mundo inteiro”, pag.151. Também no judaísmo não se pode dar a vida por outra vida, destacando que quem o faz é um tolo.

Dentre tantas perguntas interessantes neste capitulo, uma discorre sobre o prazer sexual, contrapondo-se ao cristianismo que entende o sexo como sinônimo de pecado. Para os judeus o sexo não é considerado pecaminoso devido que em Gênesis 1:28 o dever é crescei e multiplicai (pag.153). Isso é tão significativo para os judeus que se um homem “Negar prazer do sexo à sua esposa é motivo pra obrigar o homem a conceder o divórcio”, pag.153.

No capítulo 6, Morte e Agonia para quem está de luto, “...se deram conta de que a pessoa que está de luto não teria interesse em preparar uma refeição”, pag.190 e os amigos e parentes cuidaram do enlutado, Também com relação aos enlutados, “as palavras do Livro dos Provérbios (31:6) (...) presumivelmente o Rei Salomão (...) sugeriu que o vinho forte fosse oferecido àqueles que estão com a ‘alma amarga’”, pag.209.

No capítulo 7, Teologia e Oração é também composto de perguntas significativas e não me ative a uma em especial.

No capítulo 8, Leis e Costumes, “Rabi Iehoshua disse: Não impomos à comunidade um sacrifício que a maior parte dela não possa suportar (...) Como o interesse primário da lei era servir as necessidades do povo, os rabinos do Talmud se mostraram extremamente cuidadosos a este respeito ”, pag.274. Também dentre os escritos Talmúdicos, encontra-se o seguinte cuidado: dentre as leis e os costumes da comunidade, os costumes devem ser os mais atendidos. "Nunca se deve desconsiderar um costume, Pois, eis que quando Moisés foi para o céu (para receber a Torá), ele não comeu pão, e quando os anjos desceram à terra (por exemplo, para avisar Abraão de que iria ter um filho, Isaac), eles comeram pão. O que se deduz é que deve-se seguir o costume local", pag.278. "No tratado de Eruvín, quando se pergunta qual das duas bênçãos deve ser dita, antes de tomar um copo de água, Rabá ben Chaman responde: Saia às ruas e veja o que o povo faz (e então saberá qual a bênção a ser recitada) (...) Rabi Shimon Bar Iochái considera a adesão ao costume tão importante que ele a associa com um versículo bíblico (Provérbios 22:28): Não remova o marco que teus ancestrais colocaram", pag.278. 

No capítulo 9, A Mulher Judia, começa a introdução com a seguinte frase “A sociedade dos templos bíblicos era patriarcal”, pág. 313. Mesmo assim não se nega a importância da mulher na tradição judaica, baseando-se no Gênesis 2:18, que diz que “Não é bom que esteja o homem só; far-lhe-ei uma companheira frente a ele”, pág. 313. Esse capitulo é sempre referendado pelos judeus reformistas, ou seja, aqueles que entendem o  papel de igualdade da mulher nos tempos modernos. Também destaca-se nesse capítulo a importância da Mulher no Egito, que sua referência educativa permitiu que os hebreus libertassem-se. Na modernidade, a igualdade entre os gêneros, a ordenação de Rabinas é um dos avanços destacados.

No capítulo 10, Alimentos e Rituais, na introdução o Rabi Aba Aricha, “disse que chegaria o dia em que toda pessoa teria que prestar contas de todo alimento que viu e não experimentou”, pag. 337. E o Rabi Iehudá ao ser perguntado como prova-se que o Shabat é uma delícia ele responde: “Prova-se preparando um prato de beterraba, um peixe grande e dentes de alho”, pag.337. Um destaque do Rabi Iosse: “Não se deve viver numa cidade que carece de horta. São dados dois motivos para isto: o primeiro deles é que será mais difícil conseguir verduras e a dieta terá que ser à base de laticínios e carnes, o que fica mais caro; e o segundo, os vegetais fornecem nutrientes para o corpo e é melhor viver em lugares onde se possa obtê-los em abundância”, pag.338.

Interessante quanto aos alimentos apropriados, casher em hebraico, vai de como eles são preparados. Para muitos dos alimentos não casher não existe fundamentos para seu uso ou não. Importante para os judeus lavar as mãos três vezes, sendo que a primeira para limpar as mãos. A segunda tira a impureza ritual e a terceira para purifica-las, pag. 351. Também esse capítulo apresenta que após a destruição do segundo templo no ano 70 da era comum, a mesa familiar passou a representar o altar do templo, pag.350.

Enfim, o Primeiro e o Segundo livro judaico dos porquês são leitura essencial para conhecer o judaísmo e entender os fundamentos da religião no ocidente, seus rituais, seus preceitos, suas influências na organização do pensamento.