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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Filha, Mãe, Avó e PUTA – A história de uma mulher que decidiu ser prostituta.

A biografia e profissão de Gabriela Leite são um alento para os que são chamados de “filho da puta”. Sim, Puta, ou Prostituição, nada mais do que uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (Classificação Brasileira de Ocupações - CBO nº 5199-05, "profissional do sexo"). Sim, para os dois sexos. No entanto, a atividade funciona de forma informal, pois ainda não possui uma regulamentação trabalhista específica aprovada no Congresso.

Ela organiza o livro em capítulos interessantes, como mandamentos da prostituição. Um deles, “Não te apaixonarás pelo teu cliente”, achei significativo e desenvolvo um conceito pessoal a partir dele. Essa é a função da (o) profissional do sexo: não gerar dependência afetiva em ambos e tão pouco, dependência erótica. A prostituição o produto é o sexo sem o vínculo afetivo, mas para que o sexo aconteça, a empatia é fundamental. O respeito entre ambos, as carícias, um pequeno diálogo, o olhar, são técnicos da profissão e verdadeiros no objetivo do prazer. A prostitua não precisa ter o orgasmo ou prazer, mas conhecer as técnicas de produzir prazer. No caso da Gabriela, ela tinha prazer em ser prostituta.

Escutei de uma Garota de Programa certa vez, que os clientes mais jovens a procuravam para não trair a namorada. Sim, buscavam sexo e não afeto.  No namoro, o sexo com afeto eram com a namorada. Isso me lembra um caso interessante: a prostituição passiva, aquele que a Gabriela Leite indica como desejo dos clientes. Explico. A prostituição profissão existe para que (agora vou ser incisivo em função da hipocrisia) a filha com vinte anos, de uma familia pobre, semi analfabeta, emoções não desenvolvidas, ensinada pela mãe que mulher não precisa estudar, nunca leu um livro, dependente emocionalmente, seja prostituida por um homem, catarinense da sociedade, servidor público, quarenta e quatro anos, velho, casado há vinte anos na igreja, quatro filhas entre dez e vinte anos, que só vai tê-la para sexo, nada mais e descartá-la como lixo a cada trepada e voltar para sua esposa (burra, claro) e ser pai da filha de vinte anos, enquanto a filha dos pobres da mesma idade ele prostitui, agora não como profissão, mas como objeto que usa e descarta. Destaco nesse caso que o senhor, rico, velho, de bem, só tem crise matrimonial e com novinha, que ele domina pela burrice emocional dela, porque mulher de verdade ele não é macho para encarar, e nesse caso, e é frouxo para encarar as profissionais do sexo.

Uma outra Garota de Programa me contou que um cliente após o serviço perguntou porque ela bonita e nova estava "fazendo aquilo"? Ela riu e respondeu: porque você está aqui. Se os homens não procuram a prostituta não trabalha. Rimos. 

Esclarecido isso, Gabriela Leite escolhe essa profissão, sim mas como toda adolescente de classe média, teve medo de perder a virgindade, perdeu sem grandes prazeres, namorou, teve dúvidas quanto ao transar pela primeira vez, 1969 começou a Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas da USP, para orgulho da mãe, encontrou alguém mais velho, transou um monte e engravidou, entre os 20 anos. Como ela relata, os que buscavam a liberdade sexual esqueceram do anticoncepcional. Burra. Dilema com a mãe, explicar como? Igual a todos. Trabalhou em empresas, entrou para a faculdade, frequentava barzinhos, um deles Chico Buarque era o músico e seu violão, como toda mulher dos anos 60 e 70 desenvolve sua sexualidade num contexto conservador buscando a liberdade. Nada demais. Normal.

Um dia ela presenciou, de passagem entre um bar e outro, uma boate de prostituição. As mulheres entravam bem vestidas, em carros luxuosos, bem maquiadas e perfumadas. Batata! Entrou, depois de subir e descer a rua várias vezes. O ambiente não lhe agradou e ninguém se interessou por ela. Frustrou-se. Entrou num bar, comprou cigarros e um homem perguntou se ela era nova no pedaço. Disse que sim e que não tinha gostado da outra boate. Pronto. Começa um novo aprendizado. O primeiro cliente, como em tudo, perguntou se ela era nova na zona, e ela respondeu que era a primeira vez e ele seu primeiro cliente. Ele responde: “Todas dizem a mesma coisa”, ou seja, se vendendo como novinha. Ele percebeu que a tirar a roupa, ela continuava sentada sem saber o que fazer. Começou a chorar. Ele vestiu a roupa, deu o dinheiro a ela e disse: “Vá para casa, aqui não é lugar para você”. E essa foi a frase que escutou durante toda vida. Essa era a fantasia dos homens que procuram prostitutas. Mais escolada, ela dizia: “Estou aqui justamente para você me mandar para casa”, e “eles riam e diziam que ela era sacana e ficavam felizes por não estar corrompendo uma mulher direita”. Daí o segundo, o terceiro cliente.

Foi se familiarizando com o mundo da prostituição, cafetinas, aluguéis, colegas prostitutas, bairros, boates. Isso tudo em São Paulo. Depois foi viver em Minas Gerais, trabalho igual, endereço diferente.

Claro, sendo prostituta, ela namorou, teve outra filha, casou, se apaixonou, não por cliente, teve ciúmes, mas com um detalhe que ela relata: na profissão sempre gostou de sexo.

Outro capítulo interessante o mandamento do “Não terás cafetão”. Indicando já a regulamentação da profissão, não ser explorada. A prostituição é uma profissão de caráter pessoal, individual e não pode ser explorada. Isso me remeteu ao início da década de 1980, eu tinha 16 anos, em Criciúma, quando o Padre Valdemir Miotello, da Paróquia São José, hoje Diocese, desenvolvia um trabalho errado, mas bem intencionado, de tirar as mulheres da prostituição no então bairro Maracangalha. A grande briga era com os cafetões que escravizavam as prostitutas cobrando-lhes comissões, seja do aluguel da casa, seja da compra dessa mulher ter sido violentada, engravidado, “ser assanhada” e expulsa de casa ainda criança ou jovem e ter lhe dado abrigo, diferente da Gabriela Leite que escolheu ser prostituta, como hoje as Garotas de Programa. Lembro que fui a uma reunião com elas e depois fui tocar violão numa missa no Maracangalha e confesso nunca ter ouvido pessoas cantarem em louvou com tanta devoção. Lembro de ter tocado e cantado As andorinhas, e elas cantarem felizes. Não comi ninguém.

Voltando a Gabriela Leite. Ela, penso eu, como universitária organizou as prostitutas, fez congressos e seminários nacionais e internacionais sobre a prostituição. Nessa organização teve contato com Rose Marie Muraro, Leonardo Boff, ajudou Dona Ruth Cardoso no Programa Comunidade Solidária, trabalhou no Ministério da Saúde os cuidados com DSTs/AIDS num trabalho de prevenção no meio da prostituição, ou seja, a prostituta desenvolveu e humanizou a sociedade em torno do que a sociedade exclui, criminaliza, marginaliza.

Em 2005, ela criou a Daspu, em analogia a famosa grife burguesa Daslu, uma marca de roupas com nome irônico feito para financiar a ONG Davida e apoiar a luta da categoria.

Infelizmente, em 2013, ela faleceu de câncer aos 62 anos.

sábado, 25 de maio de 2024

Homenagem ao povo de Parobé

Numa conversa rápida no Messenger, no Facebook, minha amiga, diz que seu pai escreveu um livro e se eu não gostaria de adquiri-lo. Imediatamente aceitei. Em poucos dias recebi o livro com dedicatória do autor, pré-escrita, e com uma dedicatória dela; “Com carinho, ao meu amigo de muitas lutas pela educação. Marlene Damian”. 

Antonio Damian, o Tone, é um exemplo do quanto é significativo a formação do saber ler e escrever. Num momento delicado para todos nós, a pandemia da COVID-19, ele ocupa seu isolamento para escrever suas memórias. Assim como muitos fizeram. Escreveram, pintaram, música, bordaram, veicularam na internet suas ideias e assim novas vozes apareceram. Seu Tone, aos oitenta e cinco anos nos presenteia trazendo pessoas, expressões culturais, religiosidade e paisagem de Parobé e seu entorno, no município de Laguna.

Li, melhor, devorei o livro em duas horas. Uma linguagem fluída, com relatos escritos como uma contação de histórias. Seu Tone relembra as famílias e formação das comunidades, o comércio e serviços, os costumes, as construções, a saga de camarões, moradores que participaram da gestão pública, as diversões, a natureza, eventos, fatos e curiosidades, a escola, as brincadeiras das crianças e adolescentes e aventuras, histórias e causos.

Enquanto lia o livro, identificava sobrenomes de conhecidos, pensando em suas árvores genealógicas; histórias para pesquisas de historiadores nas áreas da Antropologia, Arquitetura, Artes, Educação, Geografia, História, Meio Ambiente e outras.

 

O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado

O livro de Michael J. Sandel (recebi o livro como promoção pela inscrição no Instituto Conhecimento Liberta – ICL) é a visão de um estadunidense. Traz reflexões a partir de pesquisas nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, portanto, a partir de sua cultura e referências bibliográficas anglo-saxônicas. Tem uma visão capitalista para sanar os problemas do capitalismo. Sim, ele não cita o comunismo ou o socialismo como soluções para os limites morais do mercado. Reflete o que o dinheiro não compra, sem indicar porque o dinheiro compra, emergindo assim com o triunfalismo do mercado: tudo está à venda.

Ele cita, dentro do capitalismo e mercado, exemplos como comprar um lugar para esperar na fila. Todos sabem que a ética da fila é um modelo sagrado de ordem de quem chega primeiro conquista o lugar, no entanto, foi criado um negócio das filas, transformando o lugar sagrado de chegar na fila, em eu pago para alguém ficar na fila. Cria assim os cambistas de consultas médicas, que vendem seu trabalho de ocupar o lugar na fila.

Outro exemplo que ele cita, é a iniciativa de esterilizar mulheres viciadas com o incentivo de trezentos dólares para elas não procriarem, evitando que crianças já nasçam propensas ao vício. Essa iniciativa teve as críticas quanto a visão econômica da vida, remetendo a que ponto chega o limite do mercado.

Ele destaca a troca de presentes por vales-presentes, indicando a incapacidade de dar um presente em troca de um valor para ela comprar o que quiser, evitando assim a possibilidade de errar o gosto, o número ou a forma do presente.

Interessante é o que ele cita dos bolões da morte em que empresas compram seguro de vida dos funcionários, instituindo a si mesmas como beneficiárias. Explorando os funcionários em seu trabalho e apostando e lucrando com sua morte, alegando ser um investimento. O nome deste investimento é conhecido no meio como Seguro do Zelador ou Seguro do Camponês Morto. Dentre as empresas que compravam apólices em nome dos empregados estão a Nestlé USA, Walmart e Walt Disney. Bancos também fazia parte destes investimentos.

Cita a venda de órgãos, de sangue, um amigo, um prêmio Nobel, um troféu de um campeonato como relações do limite moral do mercado e que não pedem ser comprados.

Há mais exemplos de comercialização e não comercialização que nos fazem refletir, a partir de um ponto de vista dentro do capitalismo, sobre os limites morais do mercado. Faço um destaque importante: o autor não considera a transformação social das relações de trabalho e capital como o sistema comunista e socialista.

segunda-feira, 13 de março de 2023

2º livro judaico dos porquês?

O Rabino Alfred J. Kolatch cumpre o que propõe: aprofundar as questões do 1º livro judaico dos porquês. Como no primeiro livro, o 2º Livro Judaico dos Porquês e desenvolvido a partir de perguntas muito interessantes, expondo nas respostas as visões dos judeus Ultra-Ortodoxos, Ortodoxos e Reformistas.

Com uma boa Introdução Geral nos contextualiza a Era Talmúdica sobre Os sábios do começo do período Talmúdico (Talmud, Ensinar, Instruir e Aprender - inserção minha), pag. 4 e os Sábios pós-talmúdicos posteriores, pag.8. Desenvolve algo que observei entre os rabinos que é a Elasticidade da Lei Judaica, pag. 9, ou seja, a democracia de suas teses talmúdicas, isso entre os séculos Anteriores a Era Comum até os séculos da Era Comum. Sim os judeus não leem o tempo como antes e depois de Cristo.

Referenda os Princípios da Lei Judaica, pag.11, citando que “os Rabis do Talmud se empenhavam no processo de interpretar a lei judaica para que atendesse às necessidades do indivíduo e da comunidade em geral, alguns princípios da lei judaica evoluíram, e quatro dos quais são citados neste livro”, págs.. 11-12. São eles: 1 - Princípio de Salvamento de uma vida, “Tão relevante é o princípio de salvar uma vida, que os rabinos não hesitaram em declarar que ‘Picúach Néfesh’ tem precedência sobre o Shabat”pag.12; 2 - O principio do obstáculo, “conhecido em hebraico como lifnê iver ló titen mechs’hol, teria aplicação na discussão sobre a propriedade de se induzirem pessoas a cometerem atos ilegais, das quais elas são suspeitas, para fazê-las cair em uma cilada e depois conduzi-las a julgamento”, pag.14; 3 - O princípio do Fator de Aparência, “Este princípio, conhecido em hebraico como marit áyin (literalmente, ‘o que o olho percebe’), refere-se especificamente a obter uma falsa impressão a partir dos atos de outra pessoa”, pag.14; e o Princípio da Boa Vontade, “Na lei judaica, certas atitudes são proibidas mishum eiva, ‘por causa do ódio (que causariam)’. Tais atos têm o potencial de causar desarmonia entre as comunidades judaicas e não judaicas”, pag.15. 

O livro dividido em 10 capítulos. Uma pergunta interessante se apresenta no capítulo 1, Quem é Judeu? Quem é um bom Judeu?: Por que o filósofo judeu Baruch Espinosa foi excomungado da comunidade judaica? Dentre a longa resposta diz que ele “Fez da razão o seu deus e rechaçou toda crença baseada em superstição ou argumentos falaciosos (...) Espinosa não aceitou a suposta origem mosaica do Pentateuco e criticou suas contradições internas” pag.63. Convém destacar que mesmo com a excomunhão de Espinosa, para os Judeus nunca deixa-se de ser Judeu.

O  capítulo 2, Judaísmo e Cristianismo é repleto de perguntas muito interessantes e não cabe destacar nenhuma, apenas a condição de que para os judeus o Messias ainda não chegou.

No capítulo 3, Judeus em um Mundo Gentio, é muito engraçado pois, ao mesmo tempo que ao judeu é mais gratificante por lei atender a um gentio, também destaca-se o não misturar-se para evitar que se tornem enfraquecidos.

No capítulo 4, Casamento, Casamentos mistos e Conversão, na introdução o autor destaca que “O laço que une os judeus uns aos outros não é o sangue, mas um amplo espectro de ideais, leis, costumes e tradições” pag.119. Assim, uma das perguntas do capítulo é “Por que os convertidos são considerados judeus plenos mesmo que não tenham sangue judeu? A resposta é: O judaísmo não é uma raça, mas uma comunidade unida pela religião, cultura, idioma e outros interesses”, pag.135. Essa condição é desenvolvida no livro Os judeus e as palavras.

No capítulo 5, Aspectos Pessoais a primeira frase da introdução é significativa: “Na tradição judaica, o corpo de um ser humano é considerado de máxima importância, principalmente porque ele aloja a alma dentro de si, e por isto, deve ser mantido limpo e saudável”, pag.150.  “O Talmud afirma que aquele que salva uma só alma de Israel, as escrituras consideram como se tivesse salvo o mundo inteiro”, pag.151. Também no judaísmo não se pode dar a vida por outra vida, destacando que quem o faz é um tolo.

Dentre tantas perguntas interessantes neste capitulo, uma discorre sobre o prazer sexual, contrapondo-se ao cristianismo que entende o sexo como sinônimo de pecado. Para os judeus o sexo não é considerado pecaminoso devido que em Gênesis 1:28 o dever é crescei e multiplicai (pag.153). Isso é tão significativo para os judeus que se um homem “Negar prazer do sexo à sua esposa é motivo pra obrigar o homem a conceder o divórcio”, pag.153.

No capítulo 6, Morte e Agonia para quem está de luto, “...se deram conta de que a pessoa que está de luto não teria interesse em preparar uma refeição”, pag.190 e os amigos e parentes cuidaram do enlutado, Também com relação aos enlutados, “as palavras do Livro dos Provérbios (31:6) (...) presumivelmente o Rei Salomão (...) sugeriu que o vinho forte fosse oferecido àqueles que estão com a ‘alma amarga’”, pag.209.

No capítulo 7, Teologia e Oração é também composto de perguntas significativas e não me ative a uma em especial.

No capítulo 8, Leis e Costumes, “Rabi Iehoshua disse: Não impomos à comunidade um sacrifício que a maior parte dela não possa suportar (...) Como o interesse primário da lei era servir as necessidades do povo, os rabinos do Talmud se mostraram extremamente cuidadosos a este respeito ”, pag.274. Também dentre os escritos Talmúdicos, encontra-se o seguinte cuidado: dentre as leis e os costumes da comunidade, os costumes devem ser os mais atendidos. "Nunca se deve desconsiderar um costume, Pois, eis que quando Moisés foi para o céu (para receber a Torá), ele não comeu pão, e quando os anjos desceram à terra (por exemplo, para avisar Abraão de que iria ter um filho, Isaac), eles comeram pão. O que se deduz é que deve-se seguir o costume local", pag.278. "No tratado de Eruvín, quando se pergunta qual das duas bênçãos deve ser dita, antes de tomar um copo de água, Rabá ben Chaman responde: Saia às ruas e veja o que o povo faz (e então saberá qual a bênção a ser recitada) (...) Rabi Shimon Bar Iochái considera a adesão ao costume tão importante que ele a associa com um versículo bíblico (Provérbios 22:28): Não remova o marco que teus ancestrais colocaram", pag.278. 

No capítulo 9, A Mulher Judia, começa a introdução com a seguinte frase “A sociedade dos templos bíblicos era patriarcal”, pág. 313. Mesmo assim não se nega a importância da mulher na tradição judaica, baseando-se no Gênesis 2:18, que diz que “Não é bom que esteja o homem só; far-lhe-ei uma companheira frente a ele”, pág. 313. Esse capitulo é sempre referendado pelos judeus reformistas, ou seja, aqueles que entendem o  papel de igualdade da mulher nos tempos modernos. Também destaca-se nesse capítulo a importância da Mulher no Egito, que sua referência educativa permitiu que os hebreus libertassem-se. Na modernidade, a igualdade entre os gêneros, a ordenação de Rabinas é um dos avanços destacados.

No capítulo 10, Alimentos e Rituais, na introdução o Rabi Aba Aricha, “disse que chegaria o dia em que toda pessoa teria que prestar contas de todo alimento que viu e não experimentou”, pag. 337. E o Rabi Iehudá ao ser perguntado como prova-se que o Shabat é uma delícia ele responde: “Prova-se preparando um prato de beterraba, um peixe grande e dentes de alho”, pag.337. Um destaque do Rabi Iosse: “Não se deve viver numa cidade que carece de horta. São dados dois motivos para isto: o primeiro deles é que será mais difícil conseguir verduras e a dieta terá que ser à base de laticínios e carnes, o que fica mais caro; e o segundo, os vegetais fornecem nutrientes para o corpo e é melhor viver em lugares onde se possa obtê-los em abundância”, pag.338.

Interessante quanto aos alimentos apropriados, casher em hebraico, vai de como eles são preparados. Para muitos dos alimentos não casher não existe fundamentos para seu uso ou não. Importante para os judeus lavar as mãos três vezes, sendo que a primeira para limpar as mãos. A segunda tira a impureza ritual e a terceira para purifica-las, pag. 351. Também esse capítulo apresenta que após a destruição do segundo templo no ano 70 da era comum, a mesa familiar passou a representar o altar do templo, pag.350.

Enfim, o Primeiro e o Segundo livro judaico dos porquês são leitura essencial para conhecer o judaísmo e entender os fundamentos da religião no ocidente, seus rituais, seus preceitos, suas influências na organização do pensamento.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Os Judeus e as Palavras

Em minha rede social no facebook tenho poucos amigos, colegas e conhecidos, o que faz dela um lugar tranquilo de pessoas especiais. Nela tenho acesso a informações preciosas da vida pessoal como de locais a visitar, fotografias, página a seguir e livros para ler. Os Judeus e as Palavras foi indicado por Gladir Cabral.
Para entender o processo desta resenha, primeiro li o livro, claro e depois, aleatoriamente pincei algumas citações para escrever.
Nesse livro escrito por judeus seculares, pai, romancista, e filha, historiadora, fugindo do senso comum no judaísmo Pai e Filho, Aluno e Professor, “Secularismo é uma compreensão diferente do homem no mundo, uma compreensão não religiosa”. (pag. 18. APUD. Yizhar Snilansky, in A coragem de ser Secular) e compreendem que a “Bíblia hebraica é uma magnífica criação humana. Unicamente humana. Nós a amamos e questionamos” (pag.18). Isso mesmo. A palavra os faz mais judeus do que a consanguinidade. Assim não se entendem “puros” na sua evolução, que por ser evolução é sempre um a partir do outro, tanto na cultura, na genética. Por isso estimam “a literatura ‘gentia’ e um bocado  que não nos agrada nas tradições judaicas. Muitas escrituras, inclusive a Bíblia com toda sua eloquência, ostentam opiniões que não podemos aprofundar e regras que não podemos obedecer. Todos os livros são falíveis” (Pag. 20). Isso mesmo, eles se entendem como formados e em formação a partir de outros povos, tanto na genética e mais na palavra.
Até aqui o livro já me encheu de felicidade.
Quando se chega ao capítulo 2-Mulheres Vocais as palavras se tornam mais doces. Sim, os autores dão voz às mulheres. E começam indicando que o Cântico dos Cânticos “Talvez seja de Salomão, mas de uma maneira diferente. Dedicado a Salomão. Escrito para Salomão” (pag.71). Não é maravilhoso! Com análise das frases hebraicas e algumas pequenas alterações eles sugerem que o erótico do livro de uma mulher se dirigindo a Salomão: “O Cântico dos Cânticos catarei para Salomão, o que flui suavemente para: Que ele me beije com os beijos de sua boca – pois teu amor é melhor do que o vinho”. (pag.72). Assim o erotismo do Cântico dos Cânticos saí de um louvor erótico a D’us e passa a ser um poema erótico entre seres humanos, em especial, escrito por uma mulher. E destacam mais mulheres, como os “Dois livros, Rute e Ester, recebem nomes de mulheres. O Cântico dos Cânticos, conforme sugerimos, pode ter sido narrado por uma mulher. As mulheres israelitas documentadas não são incontáveis, mas requerem contagem, e certamente contam” (pag. 83).
No capítulo 3 – Tempo e Temporalidade os autores, seculares, indicam que os judeus interessam-se pelo tempo desde tempos imemoriais, mas ressaltam “ Todas as civilizações são profundamente preocupadas com seu passado: é este, entre outras coisas, que faz com que sejam civilizações”(pag. 118). E como citei a pouco, da evolução ser um movimento a partir de outros, ao voltar indica que “... o passado judaico está fortemente entrelaçado com os passados de outros povos” (pag.120).
Bem, o livro forma uma leitura muito agradável sobre o judaísmo, inclusive esse termo judaísmo e sua conotação referente à religião. Também traz uma reflexão muito interessante sobre a criação do indivíduo único e todos serem únicos a ponto de se salvar uma vida significa salvar a todas, já que cada um é singular e representa um mundo inteiro.

Enfim, o livro é um olhar diferente pela vista de um ponto de judeus. Um bom complemento aos 1º livro judaico dos porquês e 2º livro judaico dos porquês

E muito legal, no final do livro tem um glossário com termos judaicos, como por exemplo: Kashrut: Listagem geral dos alimentos que podem ser consumido, em especial pratos que levam carne, e instruções para sua preparação. Ver Koscher. (pag.238)

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

D. Paulo Evaristo Arns - Da Esperança à Utopia

 Essa autobiografia é fundamental para conheceremos a história da Arquidiocese de São Paulo, e porque não, da Igreja Católica pós Concílio Vaticano II.

D Paulo nos conta sua história de vida, desde a Forquilhinha, ainda Criciúma na época, a sua ordenação de bispo auxiliar de São Paulo e a indicação de Cardeal. Tudo normal, não fosse D.Paulo um paladino utilizando de seu poder cardinalício contra a ditadura militar e enfrentando generais mesquinhos e torturadores .

D. Paulo é um ser fora da caixa. Assim que assumiu a arquidiocese de São Paulo, seu primeiro ato foi vender o Palácio arquidiocesano e transformá-lo em mil e duzentos centros comunitários para a organização das comunidades. Dizer mais o que de um ser humano deste? Perseguido pelos meios de comunicação social por estar sempre ao lado dos empobrecidos e de uma sociedade que reparta seus bens e distribua renda tornando-a mais justa.

Essa autobiografia é um roteiro de como Agir Fora da Caixa e fazer uma sociedade melhor se desfazendo da hierarquia, tornando-se horizontal, partilhando e solidarizando-se com os oprimidos distinguido os opressores e indicando-lhes que a concentração de renda e poder são os produtores dos empobrecidos.

O idiota

Ufa! Ler esse livro é a identidade deste blog De Pouco em Pouco. Conforme a crítica não e um boa leitura de começar Dostoeivski... mas consegui. Comecei a ler em 2014. Idas e vindas. Capítulos lidos com pouco lembrança do anterior. Mas!!!! Dostoievski não me deixou perdido. Em algum momento ele retomava o caminho do anterior.

A motivação de iniciar Dostoievski com O Idiota, foi ter sido chamado de idiota ainda muito jovem por alguém que eu admiro e que me deixou atento para esse adjetivo transformado em substantivo pelo autor.

Nesse período de sete anos lendo as quase oitocentas páginas pude acompanhar as personagens da obra que indicavam a independência e autonomia, descritas, na minha vista de um ponto, com ingenuidade, dado o detalhamento de emoções ditas pelas próprias personagens. Interessante que num romance do século XIX tantas relações movidas pelos sentimentos ditos com consciência tão ímpar. As personagens de Dostoievski para uma Rússia czarista são contemporâneas com uma individualidade ímpar. Não são submissas, são autônomas.

A indicação de Idiota da personagem central lhe ser impingida sem qualquer velamento, inclusive fazendo-me sentir um idiota ao ler a forma com que o príncipe Mitchin se relacionava com a vida. Achei as descrições de Dostoievski convidativas em mostrar relações de pessoas que não se privavam de constantemente se analisarem mutuamente, de descreverem seus sentimentos...

Fiquei intrigado com a forma agressiva dos personagens. Enquanto lia, parecia que gritavam uns com os outros... Penso que seja a objetividade da forma que os russos se relacionam... Pareceu-me que estavam sempre brigando.

Bem, esse foi meu primeiro Dostoeivski, mesmo já tendo lido Stanislavski, Vygotsky, Turgueniev, traduzidos diretamente do russo, todos descrevem detalhadamente tudo, parece-me que é da forma russa sobre a vida... não sei se é somente da literatura... Que venha o próximo.

Nos trilhos da memória

 

Quando li a respeito do lançamento do livro já criei uma expectativa de ler relatos de pessoas que andavam de trem, contanto suas experiências, descrevendo os vagões, seu interior, a locomotiva, as estações... Quando recebi o livro e comecei a ler tive medo dado a sua estrutura acadêmica, falas seguidas de citações... mas gradativamente ambas as expectativas se desfizeram e a escrita foi me envolvendo, fazendo-me trilhar por um mundo que eu não conhecia, trazendo informações e construindo conhecimento sobre uma época, um lugar, pessoas,...

Os autores souberam contar a história da Barranca, sua relação com a ferrovia, costurando o conhecimento oral, das entrevistas, o conhecimento escrito, acadêmico, o imagético as fotografias com muita sabedoria.

A medida que fui lendo, ora enchendo o saco de tanta Barranca, ora compreendendo o processo histórico de construção do bairro, da presença da ferrovia, fui construindo a ideia de começo, meio e fim de um período. Não somente determinista, mas determinada por vontades e não vontades dos gestores da vida de uma comunidade. Os autores destacam como seria diferente a vida na Barranca com a construção da ponte e da continuidade da via férrea, que daria ao local o status de centro econômico e social, mas essa possibilidade se confrontou com as rodovias, os caminhões, a economia se submetendo a uma política de vendas de automóveis, combustíveis, a um mercado exterior.

Os depoimentos no final do livro indicam e se interligam quanto a esse fim que teve a Barranca e mantem viva a memória da comunidade, daquele período, daquelas pessoas e a necessidade de se fazer justiça com políticas públicas às pessoas que foram abandonadas.

O papel dos autores em dar voz a estas vozes, organizar suas trajetórias é um passo significativo em apresentar a todos essa história.

As minhas expectativas iniciais sobre a forma e o conteúdo do livro se transformaram no decorrer da leitura graças a forma da escrita dos autores, que entre uma citação de referências bem escolhidas e outra, discorriam gostosamente sobre o assunto.

domingo, 12 de setembro de 2021

A Insustentável Leveza do Ser

38 anos me separam da publicação deste livro. Como convivi com amigos leitores, todos nós adolescentes e jovens, salvo professores, padres adultos (adúlteros da ditadura militar 1964/1985, correlata à Primavera de Praga, só que criminosos da burguesia brasileira contra os trabalhadores e a democracia) de nossa formação, e conhecedores da literatura, tinha uma noção do romance. Não tinha dinheiro para comprar, os sebos tinham o conceito de vender algo raro, as vezes mais caro que o novo, e somente nos grandes centros, as capitais. Não tinha sebos virtuais. E quem sabe, porque não, não compreenderia a proposta do autor. Sim, em 1983 a Europa de Milan Kundera, Praga especificamente, ele discorre sobre a relação com os bichos de estimação, dentro de casa, atendimento veterinário, carinhos, longe das minhas relações de carinho, mas no pátio, livres, soltos. Na minha casa tinha bem pouco desta forma, ainda casual, sem sistematização. Entre meus vizinhos, pertencentes à classe A e B, existia essa "humanização" dos bichos, hoje, argh!, pet's. Mesmo na Praga invadida. O que me propiciou a ratificação de elite, evolução estreitamente vinculada à distribuição de renda, à educação laica e pública, a ciência e não a religião como fundamento da vida.

Nesse sentido, como Helena Blavatsky, lia no etéreo, ou seja, ouvindo o que os outros leram, numa ou outra citação de um livro, revista, no comentário de um professor.

Tinha uma ideia existencialista desse romance, a lá, Jean Paul Sartre e a melhor de todas, Simone de Beauvoir. Romance na materialidade. Ler agora, foi interessante porque tenho a idade do protagonista e os chãos trilhados se tocam.

Um dia, entre 1988 e 1990, estava em Florianópolis em função de alguma atividade de natureza sindical, estava em cartaz num cinema tido como alternativo, A insustentável Leveza do Ser. Ainda lembro de forma difusa as paredes externas verdes, uma varanda, portas em formas de arco romano. Mas difusa. Não sei se existiram mesmo.

Do filme uma lembrança única, uma das protagonistas, Tereza, para entender as “traições” de seu companheiro, Tomas, envolve-se sexualmente com um estranho. Recortada e difusa, lembro dela sair não feliz. Nessa sequência guardo o conceito de A Insustentável Leveza do Ser, não conferida a Tomas, o leve, tranquilo em suas relações abertas, mas a Tereza em buscar essa leveza. Fragmento difuso, mas que me acompanhou nesses anos todos.

Ao ler a obra, aguardava incessantemente encontrar a cena difusa em minha memória, única referência de vínculo. Teria mesmo ou poderia ter sido acrescida pelo diretor ou mesmo uma invenção minha? Ufa. Cheguei nas páginas que confirmavam a cena. Senti-me familiarizado. E foi só.

A velha máxima “as linguagens são distintas” confirmou-se. Cada linguagem expressa a título de interpretação, suas leituras distintas do original. Seja pelas ferramentas, instrumentos utilizados, seja por ser uma leitura do espectador. Assim, o diretor do filme,  é um leitor do livro e reproduzirá fielmente o que o autor escreveu ou, invariavelmente, reproduzirá o que entendeu com seus conhecimentos. Com isso cai por terra a máxima tola de “o livro é melhor que o filme”, pois não se comparam linguagens, mas compreende-se o que cada uma pode oferecer, jamais esquecendo que qualquer linguagem ou ferramenta é operada por um sujeito manifestando-se, via ferramenta, instrumento e linguagem, organizando um diálogo.

Milan Kundera criou Tereza e suas características, mas Philip Kaufman colocar Juliette Binoche como Tereza é o indicador significativo de que uma leitura é uma co-autoria ad infiintun de cada leitor da obra original, sendo essa, já advinda de outras relações.

Ao livro.

Maravilhado! Primeiro porque manteve minha leitura etérea a partir dos outros, como a minha lembrança difusa da única cena do filme. Nem a sequência célebre de fotografias pelas duas protagonistas eu lembrava.

Milan Kundera narra como autor um romance que criou. Faz inserções distanciando-se de sua própria criação. O que chama-se de metalinguagem (uma linguagem dentro da outra), observo que ele faz o diálogo entre as linguagens, a ficção, o romance, e a realidade, suas opiniões diretas, não somente no texto das personagens, mas se próprio pensamento. Milan é um personagem à parte, narrador dos personagens e de si próprio.

A estrutura que ele discorreu o romance, remeteu-me a Pulp Fiction, 1994, sem linearidade. Dentro dessa estrutura, algumas subdivisões me incomodaram, como períodos curtos, bem delimitados e objetivos em contraposição de outros mais longos, sugerindo um ritmo de leitura assimétrico e por vezes cansativo, mas sempre inovador e significativo.

As personagens, agora minha concepção existencialista, muito concretas, saem nhenhenhém, vivendo um dia após o outro. Sim, com os elementos de ciúme, posse, mas atenuados pelas decisões humanas. Faço, não faço. Estou sentindo, estou fazendo sentir, mas humanas, resolvidas na materialidade da relação.

No decorrer da leitura, estava temente, com alguns conceitos advindos do criacionismo (correto na religiosidade e as emoções de dependência afetiva produzidas por suas imagens, como “D’us quis assim, é destino, alma gêmea, romance homem/mulher, mas não na materialidade civil, científica, diversa..) mas que nos dois capítulos finais,  literariamente no texto do romance ele dissolve espetacularmente.

O contexto político da Primavera de Praga, 1968, invasão da então Tchecoslováquia pela então URSS, seus desdobramentos de perseguições políticas e contexto para toda a transformação da vida das personagens, o que toda ditadura faz. Milan Kundera traça, assim senti, o drama da ditadura debatendo de forma pontual a repressão à liberdade de expressão na individualidade, permitindo a analogia com o conceito de kitsch extensivo a toda forma de pacote, enlatado, moda contido também na falsa ideia de liberdade no capitalismo.

É isso.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Em Silêncio Porque Rezamos

Li esse livro no intuito de conhecer o caminho, a história da oração na humanidade e não tanto o ato de orar. Dentre tantos teólogos e estudiosos das religiões, Donald Spoto foi um desses acasos perseguidos que proporcionaram desvelar a história da oração. Perseguidos porque há muito tempo buscava duas biografias que desvelassem de forma concreta a vida de Francisco de Assis, sem a aura do santo e de Norma Jean sem as teorias da conspiração e do mito louro. Spoto correspondeu às minhas expectativas. Isso me levou a Em Silêncio Por que Rezamos.

Claro, que ingenuamente esperava que ele escreveria sobre o porque rezamos sem expor sua fé. Erro meu, mas no inicio do livro, ele honestamente se identifica citando seu lugar como católico. Óbvio que seu doutorado em Teologia já pressupunha um lugar na religiosidade, portanto a historicidade da oração ficou num segundo plano e ao ler o porque rezamos, fiz o esforço do pesquisador de ater-me ao meu interesse: a história da oração e evidentemente vinculada ao ato de rezar, mas não atendo-me à uma divindade.

Ele inicia o livro contextualizando o ato de rezar e em licença poética inclui até as atividades de ateus (nós) análogas a esse ato, rito. E para por aí. Em todo o livro, claro, ele remete ao D’us judaico-cristão, fonte de sua fé. Sim, ele faz pontuações sobre o Budismo, Taoísmo, manifestações de povos nativos da América, África e Ásia, ilustrando como a oração se manifesta nesses povos, mas sua referência é a doutrina judaico-cristã em função dos registros históricos escritos que construíram o conceito de oração na história do ocidente.

Gosto sempre das referências concretas que trazem, muitas vezes ironicamente, textos de rabinos, santos (humanos canonizados na igreja Católica), monges indicando no seu tempo suas impressões e vivencias.

Assim, li com aquela pulga atrás da orelha todas as manifestações de Spoto remetendo-se a um monoteísmo “aculturante”, simplesmente sendo fiel à sua formação, mas não ofendendo qualquer outra manifestação. A única vez em que ele o faz, é dirigindo-se ao ateísmo, dizendo ser impossível não entender a divindade. Só aqui que ele erra. Para entender o caminho da oração fiz vista grossa.

Ele disseca a oração em doze capítulos. Ele inicia fazendo um breve relato geral sobre Tempo e Memória de como surgiu a Oração como Expressão Religiosa, pessoal, passando por várias culturas do ocidente e oriente, considerando a Oração em Forma de Diálogo em Israel, no Cristianismo e no Islamismo. E claro, não podemos esquecer que o Judaísmo é a fonte, gênese do Cristianismo e do Islamismo. Em seguida ele discorre sobre a oração como forma de Petição, de Perdão, de Sofrimento, de Abandono, de Serenidade, de Ato de Amor, como Transformação e em forma de Silêncio. Todas contextualizadas no período histórico e com citações.

Tenho muitos destaques sobre cada capítulo, mas me aterei a alguns, pois a cada fruição com uma obra, geralmente criamos outra de nossa autoria. As referências fazem as novas obras.  Não há ato criativo ou interpretativo sem referência. E aqui, riam, mas reflitam, Deuses não criam do nada, portanto, não existem, pois “do nada, nada virá”, nos ensina Brecht, assim não podem existir seres sem raízes, do nada.

Bem, retomando à oração. No capítulo sobre Forma de Petição, há uma leitura do Pai Nosso incrível, em que ele contextualiza o D'us judaico como “paternidade ... amorosa e cuidado ... (e continua) os judeus não pensavam D'us como possuindo exclusivamente o gênero masculino, e existem alusões, ao cuidado materno de D'us”. Isso é impressionante, pois podemos no perguntar como D'us se tornou macho, severo, vingativo, ruim, autoritário?

Num outro momento do Pai Nosso, O pão nosso de cada dia, ele destaca “que é referente a tudo que os homens (detesto o termo homens e prefiro seres humanos) necessitam para sustentar a sua vida, não apenas como indivíduos, mas como comunidade, cientes das necessidades dos outros”. Mais adiante ele cita “Não se pede o excesso, o luxo, e nem somente para si; pede-se para acordar todos os dias não com desnecessária abundância, mas simplesmente com previsões para evitar o desespero”. Donald Spoto nos contextualiza que no período que Jesus viveu, e talvez bastante tempo, o conceito de acumular ou a miséria absoluta não existiam, sendo que o mais empobrecido, sempre tinha o que comer, não sendo faminto ou miserável. Ele escreve: “... o significado de necessidade (...) não previa as terríveis realidades da fome generalizada, que aflige milhões em nosso tempo. Na época de Jesus, a maioria tinha o suficiente, poucos possuíam em excesso e a riqueza era muito rara na vida de qualquer pessoa”.

No capítulo Oração em Forma de Abandono é significativo o conceito de Mistério, quando ele destaca que “...não significa algo exotérico e incompreensível, e sim a profundeza de toda a realidade (...) Mistérios são verdades nas quais estamos incluídos”.

Em Oração em Forma de Serenidade, destaco o conceito de “capitalismo espiritual”, quando se contabiliza o quanto rezou, o que conseguiu com as orações e ele destaca que, ao orar, “Não oramos para encontrar respostas; (...) Nossa tarefa, portanto, é estarmos conscientes do caminho diante de nós do que da senda trilhada”. E é nesse capítulo que ele comete seu erro ao exigir como matemática “a existência de um Deus”.

Na Oração em Forma de Amor ele é coerente com o Evangelho e categoricamente cita: “Nunca ninguém viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus vive em nós (...) Os que dizem ‘amo a Deus’ e odeiam seus irmãos e irmãs [isto é, qualquer pessoa] mentem; pois aqueles que não amam um irmão ou uma irmã a quem viram não podem amar a Deus que não viram”.

E nesse capítulo, inconscientemente, ele corrige seu erro “contra” os ateus. Aqui ele faz uma citação sem citar a “crença” em um D'us ou uma Divindade.  Ele diz, “Talvez por isso sempre tenha existido um vínculo entre religião e arte, e seja esse motivo pelo qual até mesmo pessoas que dizem não possuir sensibilidade religiosa buscam o sublime na experiência artística (...) E quando percebo que fui tocado e de certa forma me tornei mais profundo por meio dessa conexão com a fonte criadora (o ser humano, destaque meu) de toda a vida, posso dizer que estou em meu nível mais humano”.

Nesse capítulo ele faz a revelação célebre, inviolável científica e cerne da oração: “A oração pressupõe que estejamos preparados para assumir responsabilidades, especialmente para os que sofrem. Há muitas formas e meios para isso, e alguns indivíduos no mundo moderno juntaram uma profunda vida de oração a uma aliança heroica com os aflitos e oprimidos de maneira extraordinária (...) Os grandes profetas de Israel, Buda, Jesus de Nazaré, Maomé não andaram pelos campos clamando abstrações sobre o significado do amor; aproximaram-se das necessidades humanas e se dedicaram a elas.” Nesse sentido, oração sem ação é vazia, medíocre, sem substância. Faço aqui um complemento significativo citando D. Helder Câmara, D. Paulo Evaristo Arns, D. Pedro Casaldálida, Ir. Doroty, Chico Mendes, Marielle Franco, Lula. Dilma, Pe. Lancelote, Leonardo Boff, Che Guevara, Fidel Castro, Eduardo Suplicy, todos seres de ação. Mas que ação? A da distribuição de renda, do saciar a fome, do encerrar a pobreza, do partilhar. E quem são os medíocres? Bolsonazi, seus filhos, seus ministros, militares que apoiam a ditadura de 1964/1985, Malafaia, Macedo, Claudio Duarte, Soares que mentem e sua ação é para o acúmulo e geração de miséria.

No capitulo a Oração como Forma de Transformação ao citar a busca da religião como forma de mercadoria, de consolo espiritual, ele cita porque Karl Marx comparou a religião como ópio, destacando que “o encontro com Deus não algo reconfortante que acrescentamos a nosso estilo de vida, como dieta e mais facilitada, ou um regime rápido de exercícios aeróbicos”. Nesse sentido observo porque pastores e crentes se afastam de uma religião comprometida com os empobrecidos, com a distribuição de renda, com a partilha, porque eles querem uma “oração capitalista” de petição para seus desejos, pasmem: mundano (ler a Economia do Desejo nesse blog).

Em a Oração em Forma de Silencio ele distingue dois conceitos que achei fundamentais: a Meditação e a Contemplação. Ele conceitua a Meditação como método, procedimento técnico, um passo-a-passo possível em duas formas, a verbal e a mental, sempre vinculada ao pensamento e ao raciocínio. Já a Contemplação seu conceito “não é um estado psicológico rarefeito que se possa imaginar, forçar ou exercer (...) A Contemplação, portanto, não é um método de oração que escolhemos, como podemos selecionar diversas formas de meditação; a contemplação é a simples consciência de Deus, em silencio e tranquilidade”.

O livro é repleto de conhecimento significativo advindo de seres humanos ímpares em conhecimento e ação para repartir e distribuir riqueza, a verdadeira fonte da oração: partilhar a vida material acabando com a fome, a miséria e o acúmulo de riqueza nas mãos de poucos para podermos contemplar a vida vivida comunitariamente.

Para meus leitores e amigos, sim, continuo ateu, mas não ignorante. O subtítulo do livro hoje é para mim: Por que rezei ou Por que vocês rezam, não posso perder a piada. Também não posso negligenciar que minha formação Católica na década de 80, com Leonardo Boff, D. Paulo Arns, D. Helder Câmara, Pe. Miotello, Norli Souza, Nilzo Felisberto, Gladir Cabral na Teologia da Libertação, muitos dos conceitos de Donald Spoto já estavam em processo de significação, o que me deixa feliz poder ler um livro de 2004, com tanto compromisso com a Tradição da Fé.  Amo meus irmãos de Fé, na fé da riqueza partilhada, orada, bendita (e benditos), que gesta vida, e detesto os crentes, na crença da riqueza acumulada, escondida, sem reza, maldita (e malditos) que gesta a morte.