https://depoucoempouco.blogspot.com/2021/11/textos.html

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Filha, Mãe, Avó e PUTA – A história de uma mulher que decidiu ser prostituta.

A biografia e profissão de Gabriela Leite são um alento para os que são chamados de “filho da puta”. Sim, Puta, ou Prostituição, nada mais do que uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (Classificação Brasileira de Ocupações - CBO nº 5199-05, "profissional do sexo"). Sim, para os dois sexos. No entanto, a atividade funciona de forma informal, pois ainda não possui uma regulamentação trabalhista específica aprovada no Congresso.

Ela organiza o livro em capítulos interessantes, como mandamentos da prostituição. Um deles, “Não te apaixonarás pelo teu cliente”, achei significativo e desenvolvo um conceito pessoal a partir dele. Essa é a função da (o) profissional do sexo: não gerar dependência afetiva em ambos e tão pouco, dependência erótica. A prostituição o produto é o sexo sem o vínculo afetivo, mas para que o sexo aconteça, a empatia é fundamental. O respeito entre ambos, as carícias, um pequeno diálogo, o olhar, são técnicos da profissão e verdadeiros no objetivo do prazer. A prostitua não precisa ter o orgasmo ou prazer, mas conhecer as técnicas de produzir prazer. No caso da Gabriela, ela tinha prazer em ser prostituta.

Escutei de uma Garota de Programa certa vez, que os clientes mais jovens a procuravam para não trair a namorada. Sim, buscavam sexo e não afeto.  No namoro, o sexo com afeto eram com a namorada. Isso me lembra um caso interessante: a prostituição passiva, aquele que a Gabriela Leite indica como desejo dos clientes. Explico. A prostituição profissão existe para que (agora vou ser incisivo em função da hipocrisia) a filha com vinte anos, de uma familia pobre, semi analfabeta, emoções não desenvolvidas, ensinada pela mãe que mulher não precisa estudar, nunca leu um livro, dependente emocionalmente, seja prostituida por um homem, catarinense da sociedade, servidor público, quarenta e quatro anos, velho, casado há vinte anos na igreja, quatro filhas entre dez e vinte anos, que só vai tê-la para sexo, nada mais e descartá-la como lixo a cada trepada e voltar para sua esposa (burra, claro) e ser pai da filha de vinte anos, enquanto a filha dos pobres da mesma idade ele prostitui, agora não como profissão, mas como objeto que usa e descarta. Destaco nesse caso que o senhor, rico, velho, de bem, só tem crise matrimonial e com novinha, que ele domina pela burrice emocional dela, porque mulher de verdade ele não é macho para encarar, e nesse caso, e é frouxo para encarar as profissionais do sexo.

Uma outra Garota de Programa me contou que um cliente após o serviço perguntou porque ela bonita e nova estava "fazendo aquilo"? Ela riu e respondeu: porque você está aqui. Se os homens não procuram a prostituta não trabalha. Rimos. 

Esclarecido isso, Gabriela Leite escolhe essa profissão, sim mas como toda adolescente de classe média, teve medo de perder a virgindade, perdeu sem grandes prazeres, namorou, teve dúvidas quanto ao transar pela primeira vez, 1969 começou a Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas da USP, para orgulho da mãe, encontrou alguém mais velho, transou um monte e engravidou, entre os 20 anos. Como ela relata, os que buscavam a liberdade sexual esqueceram do anticoncepcional. Burra. Dilema com a mãe, explicar como? Igual a todos. Trabalhou em empresas, entrou para a faculdade, frequentava barzinhos, um deles Chico Buarque era o músico e seu violão, como toda mulher dos anos 60 e 70 desenvolve sua sexualidade num contexto conservador buscando a liberdade. Nada demais. Normal.

Um dia ela presenciou, de passagem entre um bar e outro, uma boate de prostituição. As mulheres entravam bem vestidas, em carros luxuosos, bem maquiadas e perfumadas. Batata! Entrou, depois de subir e descer a rua várias vezes. O ambiente não lhe agradou e ninguém se interessou por ela. Frustrou-se. Entrou num bar, comprou cigarros e um homem perguntou se ela era nova no pedaço. Disse que sim e que não tinha gostado da outra boate. Pronto. Começa um novo aprendizado. O primeiro cliente, como em tudo, perguntou se ela era nova na zona, e ela respondeu que era a primeira vez e ele seu primeiro cliente. Ele responde: “Todas dizem a mesma coisa”, ou seja, se vendendo como novinha. Ele percebeu que a tirar a roupa, ela continuava sentada sem saber o que fazer. Começou a chorar. Ele vestiu a roupa, deu o dinheiro a ela e disse: “Vá para casa, aqui não é lugar para você”. E essa foi a frase que escutou durante toda vida. Essa era a fantasia dos homens que procuram prostitutas. Mais escolada, ela dizia: “Estou aqui justamente para você me mandar para casa”, e “eles riam e diziam que ela era sacana e ficavam felizes por não estar corrompendo uma mulher direita”. Daí o segundo, o terceiro cliente.

Foi se familiarizando com o mundo da prostituição, cafetinas, aluguéis, colegas prostitutas, bairros, boates. Isso tudo em São Paulo. Depois foi viver em Minas Gerais, trabalho igual, endereço diferente.

Claro, sendo prostituta, ela namorou, teve outra filha, casou, se apaixonou, não por cliente, teve ciúmes, mas com um detalhe que ela relata: na profissão sempre gostou de sexo.

Outro capítulo interessante o mandamento do “Não terás cafetão”. Indicando já a regulamentação da profissão, não ser explorada. A prostituição é uma profissão de caráter pessoal, individual e não pode ser explorada. Isso me remeteu ao início da década de 1980, eu tinha 16 anos, em Criciúma, quando o Padre Valdemir Miotello, da Paróquia São José, hoje Diocese, desenvolvia um trabalho errado, mas bem intencionado, de tirar as mulheres da prostituição no então bairro Maracangalha. A grande briga era com os cafetões que escravizavam as prostitutas cobrando-lhes comissões, seja do aluguel da casa, seja da compra dessa mulher ter sido violentada, engravidado, “ser assanhada” e expulsa de casa ainda criança ou jovem e ter lhe dado abrigo, diferente da Gabriela Leite que escolheu ser prostituta, como hoje as Garotas de Programa. Lembro que fui a uma reunião com elas e depois fui tocar violão numa missa no Maracangalha e confesso nunca ter ouvido pessoas cantarem em louvou com tanta devoção. Lembro de ter tocado e cantado As andorinhas, e elas cantarem felizes. Não comi ninguém.

Voltando a Gabriela Leite. Ela, penso eu, como universitária organizou as prostitutas, fez congressos e seminários nacionais e internacionais sobre a prostituição. Nessa organização teve contato com Rose Marie Muraro, Leonardo Boff, ajudou Dona Ruth Cardoso no Programa Comunidade Solidária, trabalhou no Ministério da Saúde os cuidados com DSTs/AIDS num trabalho de prevenção no meio da prostituição, ou seja, a prostituta desenvolveu e humanizou a sociedade em torno do que a sociedade exclui, criminaliza, marginaliza.

Em 2005, ela criou a Daspu, em analogia a famosa grife burguesa Daslu, uma marca de roupas com nome irônico feito para financiar a ONG Davida e apoiar a luta da categoria.

Infelizmente, em 2013, ela faleceu de câncer aos 62 anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário