Segundo a tradição [bíblica], portanto pensamento simbólico
metafórico, eles eram pastores nômades de origem semita que partiram da cidade
de Ur, na [Mesopotâmia], sob a liderança do patriarca [Abraão], em direção à
terra de Canaã. E que também, dali para frente só “mistureba”.
Dito isso, a minha vista de um ponto do exposto do A Cabala e a
arte de apropriação do sexo, da série Reflexos e Refrações, é complementar ao
tema Trabalhadoras do sexo, no Filha,
Mãe, Avó e PUTA de Gabriela Leite e na obra de Metafísica
da puta de Laurent de Sutter, o sexo por ele mesmo.
Dito isso 2, o comentarista de orelha “nada mais nada menos” é Nei
Matogrosso, citando a “maneira transgressora de se referir a um assunto que
ainda hoje não se fala nas casas das pessoas”. Pronto. Nem precisaria ler o
livro. Mas não, Nei só ratifica o autor Nilton Bonder: tem que ler. Só
parafraseio Nei: “maneira didática de se referir a um assunto que ainda hoje
não se estuda nas escolas”. Nos anos de 1999 e 2002, trabalhei como formador de
professores de Arte na Secretaria de Estado da rede Pública Estadual de Ensino
de Santa Catarina. Numa dessas Capacitações, assim era denominadas, com
professores de Arte de todas as Coordenadorias Regionais, CREs, trabalhei com
eles uma proposta metodológica, dividindo em grupos temáticos para elaborarem
planos aula com base na metodologia de aprendizagem da Teoria da Atividade,
desenvolvendo suas categorias fundantes do processo de interação com o
conhecimento: Operação, Ação e Atividade Significativa. Então, distribui para
cada grupo um tema da arte em seus diversos períodos da história da arte,
linguagens, suportes e contextos: Natureza Morta, Retrato, Paisagem e Nú
Artístico.
No interagir com os grupos e o desenvolvimento de suas atividades,
percebi que o grupo com o tema Nú Artistico não caminhava. Entendendo que todo
processo tem etapas de desenvolvimento para cada um, observei que na terceira
vez que interagi com o grupo não haviam produzido nada. Perguntei qual era a
dificuldade e eles exporem que não se sentiam pessoalmente à vontade com aquele
tema e tão pouco trabalhá-lo com os alunos, quiçá mostras reproduções de obras
de arte com o tema. Lembrando que o ensino de Arte deu um salto significativo
com a Abordagem
Triangular (fazer artístico, leitura de imagem e
contextualização histórica, não necessariamente nessa ordem) e as novas
tecnologias democratizaram acesso a imagem. Então, sentamos e conversamos sobre
a dificuldade com a nudez, mesmo ela sendo um tema da arte e tendo uma representação
do belo romântico do corpo, eles não sabiam distinguir o Nú Artístico de
Tema/conteúdo de Arte de pornografia, pecado, culpa, pudor e tão pouco
trabalhar os temas transversais diretos vinculados a este conteúdo: sexualidade
e corporeidade, interdisciplinares com Biologia e Educação Física, e os temas
transversais nas áreas de história, filosofia, sociologia. Ou seja, sexo não se
conversa em casa e nem na escola de forma mediada e saudável. Sexo ainda é tema
grosseiro de dois extremos: na pornografia, com um sim, e na religião, como um
não. Os diversos matizes existentes no cotidiano saudável são totalmente
ignorados, produzindo pessoas e sociedades ignorantes, e portanto, doentes.
Voltemos ao livro.
Com uma epígrafe talmúdica, mil e quinhentos anos atrás: Três
coisas nesse mundo se assemelham ao mundo dos céus: o shabat, o brilho do sol e
o uso da cama. Também encerra aqui. Para bom entendedor meio Talmud é
suficiente. Não. Vamos adiante.
Eduardo Bueno, o Peninha, gremista diga-se de passagem, nos diz
que o teste de conhecer um bom livro é ler a primeira linha ou parágrafo do
primeiro capítulo. Aqui já foi aprovado na nota de orelha de Nei Matogrosso e
na epígrafe Talmúdica. Mas não são a primeira frase formal do livro. Vamos a
ela: “Abordar o tema do sexo é um desafio viril”. Pronto. Aprovado. Vindo de um
rabino. Perfeito. Um detalhe antes: não sei como o Cristianismo e o Mulçumano
abordam o sexo e/ou a prostituição. De senso comum eu imagino que o tratem como
pecado, sujo, imoral, o que não encontrei na vista a partir de um ponto
sexo/prostituição de um Rabino.
Pontualíssimo Nilton Bonder esclarece que o livro “não é sobre
sexualidade, mas sobre sexo, pois depois de constatarmos que existimos, o sexo
é o elemento mais categórico de nosso corpo”. E mais feliz ainda diz que “para
cada pessoa, sexo é um elemento do corpo, de como alguém veio ao mundo, de sua
nudez e seu talhe (...) e nele poderá se contrapor ou buscar modifica-lo em
outra identidade sexual, caso ela se mostre mais adequada. Para tal, porém,
terá que esculpir-se a partir desta determinação e destino”. Isso é só a
introdução. Fantástico. Quebrou já o conceito Homem/Mulher do próprio Gênesis e
reconhece a diversidade das manifestações do sexo (termo meu. Indicado para
livrar o autor de uma possível má interpretação).
Ele também já aponta o sexo como binário em que “a sociedade
aplicou distintas propriedades inerentes à essência de ‘dois’”, e ainda “por
força da multiplicidade – ainda que restrita -, provocar gosto pela
diversidade”. Faço o recorte aqui, para o casal (Homem/Mulher, Mulher/Mulher/
Homem/Homem e suas variações LGTBQIAPN+) (não do autor), trisal, quadrisal, não
monogâmico, ou seja, a multiplicidade inerente nas “virtudes das relações do
tipo eu-tu. Sim, o binário se presta a muitas políticas (...) Não tanto pelo
que ele determina, até porque a evolução é incompatível com a noção de
imutável, mas para o que aponta. Sexo é corpo e sexo é encaixe”.
Na Personificação – não é bom estar só, esclarece que “o sexo diz
respeito a si e não ao outro ou à relação com o outro (...) sendo que essa
afirmação pode causar estranhamento, dado à cultura humana (não há outra
cultura, brinco com o autor), que estabeleceu uma conexão direta entre sexo e
afeto, trazendo ambiguidade confundindo as duas áreas”. Essa reflexão dá pano
para manga, pois trata literalmente do para fazer sexo não precisa do afeto, da
admiração, do amor pelo outro para namorar, casar, procriar, só precisa do amor
próprio pelo prazer. E aqui o conceito de prostituição como profissão do prazer
se fundamenta. A autobiografia Filha,
Avó, Mãe e Puta, do prazer de vender o produto sexo com prazer, sem se
apaixonar pelo cliente e o Metafísica
da Puta com as personagens putas, portanto trabalhadoras do sexo,
representando esse universo concreto nos palcos, e até no simbolismo, os
autores apedrejados: Joga pedra na Geni.
No livro A Cabala e arte da apropriação do Sexo, Nilton Bonder nos
explica a confusão construída, erroneamente, culturalmente sobre essa conexão
direta entre sexo e afeto. Que não há. Sexo é sexo e afeto é afeto. Explico
concretamente: um homem rico, velho, casado, quatro filhas com uma, no
caso, esposa que entregou sua vida a ele (normalmente confusão entre
sexo e afeto). Prostitui, uma jovem de vinte anos, tendo-a para
sexo (sem afeto) quando ele quer, semianalfabeta, pobre, de família
simples, ela se mantém assim, uma vida inteira, sem ganhar um centavo,
servindo-o com sexo. As putas (que separam sexo e afeto) são melhores
porque trabalham, prostituem-se, cobram por livre vontade. Já as amantes e
as esposas, são prostituídas pelo covarde banana senhor de família, de graça e
pior, com doentio afeto.
As jovens prostituídas (rotuladas romanticamente como
amantes), simples, pobres, apaixonadas por cafetões velhos, velhacos, covardes
da boa sociedade, são apenas lixo descartável depois de velhas,
usadas, num final já programado, para elas, mero ínterim tido como
falha, do “bom casamento” do velho banana covarde até que a morte o separe da
sua esposa prostituída mor.
No capítulo 2, Apropriação ele divide em tópicos, todos a partir
de alguma citação do Talmud.
Na Febre física – apropriação da libido, (um sendo um), “como
diretamente relacionada ao corpo. E o corpo se excita por meio de dois recursos
principais: o toque e o olhar”. E explica os modelos de Febres.
Na Floração emocional – Apropriando a intimidade, (você no outro),
“A intimidade é a apropriação de si através de um outro. Ela projeta o ser para
além do corpo, fazendo com que ele experimente uma parte de si que só existe em
relação com o outro”.
Floração intelectual – apropriando o gênero, (o outro em você).
Nesse tópico ele baseia na relação homem/mulher, com base na sua profissão de
fé, o judaísmo, e na ideia criacionista, macho/fêmea. da Torah e não
do Talmud, Li o tópico, mas o transpassei para toda experiência de sexo do
espectro LGBTQIAPN+, nossa descendência homo sapiens de 200 mil anos.
Febre espiritual – Apropriando a nubilidade, (um virando um). Aqui
ele não se refere ao Talmud, mas à Torah. “A nubilidade é o estado de quem é
núbil, de quem tem desejos de casar-se (...) O principal requisito para um
casamento bem-sucedido não é a afinidade ou a atração, mas o desejo núbil, o fascínio
por expandir a si mesmo. Uma família é uma expansão, mesmo que seja um contrato
entre dois que não comtemple procriação”. Aqui ele diz uma frase significativa:
“Esse desejo é aquele que ensejará um acordo que seja propulsor do projeto
pessoal de dois (ou mais de dois) indivíduos”.
No Capítulo 3, Perversões e Pornografias, o autor nos esclarece
que a “Perversão – da raiz per vertere, virar às avessas – se
manifesta por uma inversão (...) ocorrerá quando o indivíduo, em vez de
apropriar-se de si, tentará apropriar-se do outro”. E “Pornografia (...) do
radical porne que significa ‘prostituta’ ou ‘a
vendida/trocada’. E no termo grafos, escrever/descrever.
Literalmente (...) àquele que escreve sobre prostitutas (...) o caráter
mercantilista, por substituição (...) apropriar-se não de si, mas de outra
coisa (...) A perversão é a inversão do sujeito, a pornografia é a substituição
do objeto”. Esse capítulo desvela o velho, casado com quatro filhas, quando ele
prostitui (não de uma Profissional do Sexo) a jovem, solteira, analfabeta como
“apropriar-se de outra coisa, do objeto”, transforma-a em coisa, objeto. O
capitulo se divide nos seguintes tópicos:
Frieza física – perversões da libido (abuso), a partir do
simbolismo de determinadas culturas, “... se deparar com as varias
possibilidades de requintar sensações e assim estimular aspirações, belezas e
deleites do sexo, o humano conheceu também a obscenidade: o corpo podia ser
associado à carne, ao mundano, a grosserias e imundícies. Tal percepção
responde pela presença de ajuizamentos morais na história da sexualidade
humana” (as dificuldades dos professores de arte que experienciei).
Há um subtópico fantástico, Nudez de corpo e de olhar,” A
tentativa moral de civilizar controlando a sexualidade é outra forma de abuso
(...) A nudez humana não é mais revestida de sua pureza, ela requer interação
com malícias – doces malícias” em A flor da pele Chico Buarque ilustra perfeitamente
esse tópico.
Defloração emocional – pornografias da
intimidade (assédio). Aqui a citação do Talmud Yoma 29a (mil e quinhentos anos)
é alusiva ao categórico: “Não é não”. Inclusive, o não é não, da jovem, pobre,
semianalfabeta, que ignora esse assédio.
Defloração intelectual – pornografias do gênero (fetiche), Ketubot
65a, do Talmud, um rabino frente a um depoimento que aludia à intimidade de um
amigo fica excitado e “convulsivamente, volta correndo para casa a fim de ter
relações com sua mulher”, ilustrando “de que o erótico, aqui, não é libidinal,
uma excitação física, mias que ele se origina na esfera intelectual”.
Frieza espiritual – perversões da nubilidade (promiscuidade), um
jovem busca uma prostituta e essa lhe oferece o melhor. No entanto, o jovem dá
“uma brochada que nasce de uma nova dimensão da sexualidade”. A partir disso, a
prostituta também “brocha” e então ela vende tudo os dois entram em
estado d nubilidade, onde todos os aparatos usados pela prostituta se
apresentam na cama dos nubentes. Aqui é tratado a ideia do sexo responsivo,
aquele pelo qual na nubilidade, não perde a “promiscuidade”, “desafio de
qualquer casamento, independente de sua longevidade, amadurece e se torna o
desejo de um virar um’”.
E por final, o Apêndice, parte que me apaixonei, pois Nilton
Bonder, traz enxertos do Talmud, mil e quinhentos anos, onde ratifiquei a
milenar honestidade intelectual dos rabinos.Com os comentários de Nilton
Bonder, divide-se em:
1 - Sexo e incontinência, Talmude Hag, 16a, “Por mais que as
construções morais, os costumes e a sociedade estabeleçam regras para atender a
valores em ‘Nome dos Céus’, expedientes de escape ara o indomável devem ser
disponibilizados. Reprimir é como jogar combustível na já inflamável essência
do desejo”
2 – Sexo e estupro, Talmude Hag 9a, “De maneira sagaz, a mulher
consegue demonstrar que, que quando se trata de sexualidade, nenhuma
experiência meramente sensorial pode atenuar a violência e o abuso sofridos
(...) O corpo humano pertence exclusivamente ao seu sujeito, e quando alguém
desrespeita isso, fere profundamente a existência (...) uma mulher não é um
corpo que responde a excitações, mas uma consciência que o habita”.
3 – Sexo e intimidade temporária, Yoma 18a, “”Encontros que se
constroem como uma experiência única podem conter a eternidade da entrega que
fazem acontecer, chegando a ser um evento perene num único dia. ‘Até que a
morte os separe’ são lembranças para a vida inteira que podem ser deflagradas
numa experiência singular”.
4 – Sexo e tamanho, Talmude B.Mts., Remete-se ao tamanho do pênis
“E o maior atributo desse trecho bizarro do Talmude é reconhecer a fisicalidade
inerente ao sexo. Sem embaraços e de forma direta, a passagem indica o corpo e
sua nudez como aparatos essenciais ao sexo. Apenas por sua apropriação a
sexualidade pode ser representada. Daí a importância de acoplagens e encaixes,
típicos do que forma e corpo”.
5 – Sexo e etiqueta, “Na sexualidade, mesmo as permissões mais
invasivas e ousadas são experimentadas num espaço de consentimento, não de uso
(...) Nada é sujo ou indecente na sexualidade se os parceiros estiverem
disponibilizando e franqueando seu corpo mediado por uma refinada afirmação de
autonomia”.
6 – Sexo e traição, Talmude Meg.12a, “Essa curiosa passagem deseja
revelar que se existe a semente da infidelidade, ela existe para ambos os
congêneres (...) A deslealdade do adultério não é para com o outro, mas para
com a natureza contratual da nubilidade”. Nesse enxerto complemento com o
depoimento de uma garota de programa, em que ela diz: os homens me procuram
para não traírem suas namoradas ou esposas, ou seja, não trair o afeto, o
sentimento. Ao passo que, fora da prostituição, apaixonar-se, afeiçoar-se por
outra companhia, pois gera nova nubilidade e amplia exponencialmente a traição.
7 – Sexo e frequência, o Talmude regulamenta a frequência conforme
a disposição com o trabalho. Quem trabalha na mesma cidade, duas vezes por
semana. Em outra cidade, uma vez. Marinheiros ausentes, pode ser uma vez a cada
seis meses. E alerta, nos casos comuns, privar a esposa por mais de uma semana
estabelece jurisprudência para iniciar o divórcio. Nesse enxerto complemento
que fora do judaísmo, ou qualquer imposição religiosa, a frequência e
disposição diz respeito a cada um, ao seu ritmo, a sua predisposição, e no caso
dos civis, diz respeito a sua individualidade pois o sexo não está vinculado a
rituais nubentes, mas a existência cotidiana.
8 – Sexo e culpa, Av.Zara 17A, esse enxerto carece de sua
introdução: “Dizia-se que Rabi Eleazar bem Dordia não perdia uma única
prostituta no munda sem que tivesse relações sexuais”. Faço uma piada: vivia
endividado. Aqui o convívio do judaísmo com a prostituição, entendendo-a como
pecado e mundana, e com isso, a busca do perdão pela fraqueza. Destaco, isso no
contexto religioso, na vida civil não há essa culpabilidade. Na religião o sexo
é simbólico, espiritual, núbil, na vida civil ele é concreto, material, de dois.
9 – Sexo e autoconhecimento, Kid, 81A, “As pessoas que conhecem
sua excitação podem ficar mais relaxadas. Aquelas que, no entanto, têm
propensão a cálculos e cogitações, essas precisam se antecipar para não
ultrapassar o ponto do não ‘retorno’”. Inclusos aqui todos os machistas.
10 – Sexo e receptividade, Talmude Nr,20A, “A receptividade ao
sexo é algo que vai se construindo num processo que não depende da puberdade.
Uma mistura de ocultamentos e interditos vai trançando uma intricada relação
entre o olhar e nudez, a tal ponto que fica nítido o momento em que (...) algo
vira intrinsecamente desejável”.
É isso. Essa abordagem do rabino Nilton Bonder, entrelaçada pelo
judaísmo, se pôs em diálogo com a minha abordagem ateísta, e elas se
entrelaçaram. O bom e velho sexo, origem da espécie Homo, há dois
milhões e meio de anos, nos separou como espécie ao desenvolver o pensamento
simbólico complexo estruturando a linguagem gestual, oral e mais tarde a
escrita, considerando as diversas formas de representações, negando-o,
demonizando-o, mas como referendam Nilton Bonder, nesse livro e Chico Buarque, em O que será/ A flor da pele: “O que não
tem vergonha, nem nunca terá/ O que não tem governo nem nunca terá/ O que não
tem juízo”

Nenhum comentário:
Postar um comentário