No primeiro capítulo deparei-me com a formatação acadêmica: texto, endentamento, fonte menor, nota de rodapé, pensei: Não vai ser uma leitura gostosa, fluída. Engano. A autora, Rose Méri Nietto, por meio de sua formação em Psicologia e História produziu um texto híbrido entre os gêneros textuais: Dissertação, Biografia, Entrevista e Artigo de Opinião. E claro, uma sessão de terapia e análise no divã da psicóloga Méri e a paciente Marlene Soccas.
Para mim um livro que contém cinco assuntos distintos, portanto cinco livros. Méri expõe muito bem no Capítulo 1. PARA INÍCIO DE CONVERSAR: AS CATEGORIAS DA PESQUISA, MEMÓRIA, GÊNERO E HISTÓRIA DAS MULHERES, IDENTIDADE, em particular, no texto, Escrita de Si, explicito sobre o objeto da pesquisa, Marlene Soccas, e implícito sobre a autora, História Cultural e, sinto, por proximidade dos orientadores e amigos, Giani Rabelo, Marli de Oliveira Cota e Carlos Renato Carola, História da Educação.
No Capítulo 2, ENTRE A REBELDIA E A SUBMISSÃO: FRAGMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS DE MARLENE SOCCAS SOBRE SUA INFÂNCIA, JUVENTUDE E VIDA ADULTA, em MARLENE SOCCA NARRANDO SOBRE SUA INFÂNCIA, JUVENTUDE E VIDA ADULTA, a autora não vai direto aos relatos, não simplesmente os reproduz, mas a partir de outros autores fundamenta como esses enxertos (passam a ser) autobiográficos são interpretados. Ao ler essa forma e estrutura de texto senti que na própria língua materna, tanto a narração oral, a recepção dessa narração, a transcrição dessa narração, a representação escrita, a leitura dessa representação escrita, se comportam como uma TRADUÇÃO, ou seja, aquilo que Maria Izabel Leite me disse como minha coorientadora no mestrado: “Aquilo que eu digo não é aquilo que você escuta”. E isso vai ocorrer em todo livro. A autora nos presenteia com um outro gênero, uma Biografia Comentada. Aqui Marlene Soccas nos presenteia com a história de sua infância, adolescência e juventude sempre “crítica”. Em “PERCEBE O OLHAR DESAFIADOR DELA”! EXPERIÊNCIAS DA INFÂNCIA EM LAGUNA, a autora contextualiza a Laguna de 1934, ano do nascimento de Marlene Soccas e aparece então as falas endentadas em fonte menor, mesmo que TRADUZIDAS antes ou depois, como “..., Mas minha mãe voltou para a casa do pai dela, que era um pescador, que tinha que sustentar nove filhos. Aí veio uma filha com mais duas crianças...”. Esse texto por si só, tem uma força fantástica. É autoral. E independente do que outros autores digam, reflitam, traduzam, nele está Marlene Soccas, pura de Si (esse termo é uma provocação). Outra transcrição apaixonante endentada no livro, por volta dos anos 40, “... que o chão da cozinha não era nem forrado de tábua, era chão de terra mesmo e, se não me engano, na cozinha, era aquela lamparina com chumaço de estopa, embrulhado no óleo que eles acendiam”, remeteu a minha infância em 1970, quando no mesmo período, Marlene Soccas estava presa e sendo torturada. E aqui ela conta então sobre a relação de perda do pai, do tio que “cumpriu” esse papel e com a tia criou ela. Da relação com os primos, primas. Em “DUAS PALAVRAS QUE EU NÃO SABIA: O QUE ERA SÓCIA E BIBLIOTECA”; A INICIAÇÃO DE MARLENE SOCCAS NO MUNDO DA LEITURA E DA ESCOLA. Aqui observamos a significação dos conceitos a partir da afetividade. Ao entrar para o Grupo Escolar e iniciar a primeira série, seu tio lhe disse a seguinte frase “Olha, tu estás sócia da biblioteca!”, e ela indagou-o e ele explicou o significado das palavras, e isso a motivou para a leitura. O mesmo aconteceu em “TU NÃO ESQUECE DO POBRES”: A MENINA MOÇA, quando a mãe, ao estabelecer que ela iria ser cuidada pela Tia Chica, com condições melhores de vida, lhe disse: “Ô Marlene tu nunca esquece dos pobres” e que Marlene entende como motivação para formação de sua consciência de classe. Em “ ELA QUERIA ME EMBONECAR PARA EU ARRANJAR UM BOM CASAMENTO, UM BOM PARTIDO”: TRABALHO, CASAMENTO E A ODONTOLOGIA COMO PROFISSÃO, indicam que Marlene foi educada “para ser uma mulher de bem”, mesmo tendo uma personalidade “sapeca”. Nesse item aparecem então a formação da mulher para um bom casamento, a formação profissional, e no caso da odontologia da época, mostrando o percentual baixo de participação da mulher nessa área. Em O INÍCIO DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DE MARLENE SOCCAS, descreve o processo de colocar-se como profissional, as condições materiais necessárias e a forma como procedeu para adquiri-las e a busca de complementação da formação.
No Capítulo 3, OS PRIMEIROS PASSOS DA FORMAÇÃO
POLÍTICA D MARLENE SOCCAS COMO MILITANTE DE ESQUERDA, há uma contextualização
de como a autora abordou esse processo. Em BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO ANTERIOR AO
GOLPE CIVIL-MILITAR DE 1964, a autora discorre com referências bibliográficas
sobre as circunstâncias que geraram essa tragédia na história do Brasil, em que
a classe dos ricos se colocou contra o processo de democratização da sociedade
brasileira que qualificavam as condições estruturais de vida da classe
trabalhadora. Em o “ENCONTRO” COM O MILITANTE PAULO STUART WRIGHT, acontece na
casualidade de uma viagem de ônibus de Criciúma para Florianópolis, numa
conversa obrigatória de quem vai ficar quatro horas sentado ao lado. O gostoso
desse relato é lê-lo como uma história de amizade, perceber que, já no primeiro
encontro, há algo mais, e somente trinta páginas, depois de muito contar, em
“MAS [RE]ENCONTREI SEU PAULO WRIGHT”, EM SÃO PAULO, ler “...enquanto
perambulávamos e namorávamos pelas ruas de São Paulo...”. Ui, que agonia! Essa
sexualidade que não aparece. E Méri indica isso. Minha leitura aponta para o
ainda machismo condutor de vidas. Ainda a mulher (e todos nós) era motivada à
vida, seja ela qual for, pela admiração a outrem. No caso da produção provedora
e intelectual, os referenciais são masculinos. Maria Madalena por Jesus, Ana Arendt
por Martin Heidegger, Simone de Beauvoir por Sartre, Pagu por Oswald de
Andrade, Anais Nin por Henri Muller. Levando-as a uma independência
intelectual, mesmo tendo nessas relações a dominação machista. Isso dentro da
Honestidade Intelectual, porque vamos ter meninas jovens admirando velhos
casados e ficando ao longo da vida como resto, lixo descartável, prostitutas
passivas, na Desonestidade Intelectual.
Continuando, nesse item descreve-se a continuidade
dos estudos em odontologia, concomitante as orientações de leitura de Paulo e
formação política. Sendo “analisado” sempre pela autora, Meri, com referências de
outros autores dos porquês daquelas memórias. É um divã constante. Em “QUEM SÃO?”, PERGUNTOU ELE. “ERA UMA
ORGANIZAÇÃO DE ESQUERDA TAMBÉM”, RESPONDEU ELA: SOBRE AS ORGANIZAÇÕES DE
ESQUERDA, título fictício, e criativo por parte da autora, contextualiza
brilhantemente (Mesmo! Outro livro dentro do livro) as diversas organizações de
esquerda naquele período. Esse “recorte” nos dá na realidade a dimensão da
diversidade de pensamento, que vão ser classificados como Tendências quando
pertencentes a uma Corrente dentro de uma Instituição e Dissidente quando rompe
com essa Instituição. Então temos organicamente/estruturalmente, Instituição,
Corrente, Tendência e Ruptura, gerando outra estrutura orgânica correlata e
assim ad continuum. Claro, que no contexto da ditadura civil-militar,
tendências e correntes existiram autonomamente de uma Instituição como um
Partido Político. D. Marlene Soccas, segundo ela, transcorreu superficialmente
nessa estrutura, posicionando-se entre luta armada e formação política, na VPR,
Vanguarda Popular Revolucionária.
No Capítulo 4, CLANDESTINIDADE, TORTURA, PRISÃO E O
PROCESSO DE FORMAÇÃO POLÍTICA COMO MILITANTE DE ESQUERDA DE MARLENE SOCCAS,
esse é o capítulo mais esperado. Por si só ele já é um livro. Um “breve período
em que esteve na clandestinidade, sei ‘sequestro e sua detenção na Oban, as
torturas sofridas por ela”, passa a ser o propulsor e ruptura com um modelo de
toda uma vida. NA CLANDESTINIDADE:”EU ROMPO TODOS OS LAÇOS COM A MINHA VIDA PROFISSIONAL
CMO DENTISTA, LARGO O MEU EMPREGO”, sair de cena e passar para os bastidores
não por opção, mas por coação. A ditadura joga as pessoas para a marginalidade
para poder mata-las como estranhos à normalidade de uma sociedade. Para
sustentar-se fora da normalidade, Marlene doou o consultório odontológico para
Paulo que o vendeu e transforma o dinheiro em subsídio para os militantes da
Ação Popular. Deixar de morar no centro e morar na periferia para não chamar a
atenção e o custo do aluguel mais barato. FUI ENCAMINHADA IMEDIATAMENTE PARA A
SALA DE TORTURAS E ELAS COMEÇARAM, TAMBÉM, IMEDIATAMENTE”: LEMBRANÇAS DAS
TORTURAS, esse item, como no livro Brasil Nunca Mais, é um trecho triste de
ler. Angustiante ler esses relatos que mostram a crueldade do regime ditatorial.
“EM RELAÇÃO À FORMAÇÃO, A PRISÃO COMPLEMENTOU-A”: XPERI~ENCIAS FORMATIVAS NA
PRISÃO, nesse item achei interessante o foco nas cartas que Marlene trocava, abordadas
aqui como documento e analisadas (no divã) “como não tão espontâneas quanto
parece, e nem mesmo um retrato fiel da realidade”. Aqui também aparecem as pinturas em óleo sobre tela que Marlene fez para
representar situações e locais de sua vivência.
Finalizando a resenha.
Essa interlocução autora, Méri/objeto da pesquisa, Marlene Soccas/referências, autores fundamentando cada vírgula, é significativa, pois temos nesse livro, Méri, com a Escrita de Si subjetiva/implícita, Marlene, com a Escrita de Si explicita, disponibilizada/cedida/generosamente para ser interpretada e todos os teóricos para fundamentar essa interpretação. A (auto) biografia (não escrita) de Marlene Soccas, por si só, pois mesmo sendo seu relato, sua leitura de si e da realidade, sem as “chaves bíblicas” (brincadeira correlata) já nos leva (rá) a uma fruição poética (audacioso escrever isso).
Adorei e aprendi muito nesses cinco livros.
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