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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Filha, Mãe, Avó e PUTA – A história de uma mulher que decidiu ser prostituta.

A biografia e profissão de Gabriela Leite são um alento para os que são chamados de “filho da puta”. Sim, Puta, ou Prostituição, nada mais do que uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (Classificação Brasileira de Ocupações - CBO nº 5199-05, "profissional do sexo"). Sim, para os dois sexos. No entanto, a atividade funciona de forma informal, pois ainda não possui uma regulamentação trabalhista específica aprovada no Congresso.

Ela organiza o livro em capítulos interessantes, como mandamentos da prostituição, com subtópicos pontuais. E começa com um prefacio muito bom:  A grande lição. “Adoro homens. Gosto de estar com eles, e não conheço homem feio. Todos são bonitos: cada um com seu cheiro característico (...) Outra coisa que adoro é falar o que eu penso (...) Existe uma terceira coisa que eu prezo (...) É a liberdade (...) acredito que também ajudei um sem-número de prostitutas a ter uma vida mais digna”

O Primeiro mandamento da puta: serás discreta. Jamais apontarás um homem na rua e dirás que ele é teu cliente. Aqui ela cita uma experiência com drogas, por curiosidade e tentar ser mais produtiva. Surtou e descreve “eu vi o que estava acontecendo comigo (...) Muitas meninas chegaram a bater em seus clientes (...) Resolvi parar”. Com isso, conseguiu bater papo com seus clientes “Cliente não se trata como namorado (...) Mas dar ouvido a eles e saber p que gostam e o que querem (...) não são conhecedores da sexualidade feminina (...) Eles sabem de suas vontades urgentes e suas fantasias (...) tratadas como algo a ser escondido, uma fraqueza que não deve ser dividida com ninguém (...) Inclusive e principalmente com as mulheres que eles amam”.

Em seguida, “As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios” - Ana Cristina Cesar. Aqui ela conta a história de seus pais. Do amor que ela tinha pelo pai, “Boêmio, fanático pelo seu trabalho, elegante e perfumado”. Sua mãe, “indígena, trabalhou da roça, nunca foi à escola (...) Aprendeu a costurar (...) e foi assim que muitas vezes – quando meu pai desaparecia por meses – ela conseguiu manter nossa casa de pé sem nunca faltar nada”. Aqui ela discorre sobre seu primeiro ato de rebeldia, ficar conversando depois da escola, seu primeiro emprego, as paixões escolares, o primeiro namorado, o curso pré-vestibular e entrar na universidade

E, “A porta da verdade estava aberta. Mas só deixava passara meia pessoa de cada vez... Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso”. – Carlos Drummond de Andrade. Fala do Samba que invade São Paulo. O SEXO SIMPLES. E RÁPIDO, com o primeiro homem que a tratou como mulher,  mas não o homem que mais amou. O GRAVEMENTE GRÁVIDA e o SEGREDO QUE NÃO ERA SEGREDO. O PEDÓFILO DA FAMÍLIA, um parente próximo chamado para conversar e lhe aconselhar e que a bolinava. FRÁGIL DEMAIS PARA RECLAMAR, sua mãe respeitou a decisão de não revelar o pai da criança. Em o FIM DO DILEMA, descreve a decisão de abandonar a filha, quando a mãe, reguladora, recebeu-a com as malas, com a famosa frase: “ou age como eu quero ou não mora mais aqui”. Segue então EM BUSCA DA LIBERDADE DESCONHECIDA, “sem ter para onde ir nem amigos a quem procurar, fui para a rodoviária da cidade”. PLINIO MARCOS, O TODO-OUVIDOS, “ia passando com seus livros mimeografados e parou para me cumprimentar (...) Melhor ainda foi ouvir do Plínio que eu não era uma mulher sem futuro”. PRIMEIRO CLIENTE, SEGUNDO CLIENTE, TERCEIRO... “Sentei na cama e fiquei olhando para o homem sem saber o que fazer”.

Segundo mandamento: não beijarás na boca. Beijo na boca é afetivo, só o darás a quem queres. HOLLYWOOD NA BOCA DO LIXO, “Entre o bar Redondo e o luxuoso hotel Hilton havia uma boate de prostituição extremamente chique: La Licorne (...) A movimentação das mulheres começou a chamar minha atenção (..) Entravam na boate e eu ficava imaginando o que acontecia lá dentro (...) Percebi que, se eu quisesse, poderia mudar radicalmente de vida”. A BOCA DO LUXO E A BOCA DO LIXO faz um paralelo entre as casas de prostituição glamourosa e a do dia-a-dia, em que na primeira se dormia durante o dia e brilhava à noite e a segunda ralava durante o dia e fechava à noite. Gabriela era da Boca do Lixo. Em MUNDO CÃO expõe suas contradições sobre o trabalhar na prostituição. Em UM GRANDE (E DOLOROSO) FAVOR expõe uma situação de humilhação num dos prostíbulos, que ao chegar, passou à frente na fila e o porteiro a esbofeteou indicando para ir para o fim da fila, o que a fez trocar de local de trabalho. Aqui nesse tópico, ela descreve que ao chegar no prédio para trabalhar pela manhã, década de 70, a fila de homes esperando no elevador era imensa. Em TRABALHO IGUAL, ENDEREÇO DIFERENTE é decorrência do ocorrido e a qualidade do atendimento e normas eram diferentes.

Terceiro mandamento: não terás cafetão. Não cairás nesta cilada, sob pena de acabares na sarjeta. FORA DA LEI SEM SER, ela diz “ Apesar do nome, o cafetão não tem nada a ver com a chamada cafetina, que seria preferível chamar de empresária da prostituição (...) Há muitas décadas do gigolô reinava como uma espécie de parasita, que aproveitava da fragilidade, do medo, da solidão da mulher que trabalhava à noite para explorá-la”. DE PUTA A PROPRIEDADE expõe essa dependência da mulher com os cafetões que se propunham a guardar o dinheiro delas em espécie, para não correrem o risco de serem assaltadas. Aí, eles as assaltavam inventando taxas e gastando seu dinheiro. UMA SOLUÇÃO CHAMADA VELUDO, policial civil, da delegacia de costumes, Veludo, era amigo das cafetinas e prestava favores aqui e acolá, e ajudou Gabriela a se livrar de um cafetão que a explorava com ameaças, inclusive. Importante citar aqui, depoimento de uma Garota de Programa, existe crime organizado que diz-se para proteção delas, agindo inclusive com extorsão de clientes, caso elas se sintam lesadas, produzindo uma indústria da extorsão, da qual algumas passam a fazer parte. Gabriela Leite, como líder das prostitutas trabalhou para que os casos de exploração das trabalhadoras do sexo fossem caso de polícia e não mais ações fora da legalidade, como cafetões, gigolôs e no caso, organizações criminosas. Em O OCASO DOS GIGOLÔS ela ratifica essa exploração.

Isso me remeteu ao início da década de 1980, eu tinha 16 anos, em Criciúma, quando o Padre Valdemir Miotello, da Paróquia São José, hoje Diocese, desenvolvia, no então bairro Maracangalha, zona da cidade, um trabalho errado, quanto a querer tirá-las da prostituição, mas bem intencionado, em livrá-las dos cafetões. A grande briga era com os cafetões que escravizavam as prostitutas cobrando-lhes comissões, seja do aluguel da casa, seja da compra dessa mulher ter sido violentada, engravidado, “ser assanhada” e expulsa de casa ainda criança ou jovem e ter lhe dado abrigo, diferente da Gabriela Leite que escolheu ser prostituta, como hoje as Garotas de Programa. Lembro que fui convidado com violeiro para uma reunião com elas e depois fui tocar violão numa missa no Maracangalha, e confesso nunca ter ouvido pessoas cantarem em louvou com tanta devoção. Lembro de ter tocado e cantado As andorinhas, e elas cantarem felizes. Recentemente conheci um colega de trabalho, que relatou ter ido a Criciúma para estudar e frequentava o Maracangalha, onde as prostitutas namoravam com eles se cobrar. Achei interessante essas histórias se tocarem. Ler Gabriela Leite agora, quando aos 16 anos e ter vivenciado uma história de organização das prostitutas, enquanto Gabriela Leite as organizava em São Paulo e Brasil, encontrar um colega que esteve no mesmo local vivenciando outra experiência.

O Quarto mandamento: não revelarás a fantasia do próximo. A fantasia do teu cliente é secreta e sua identidade jamais poderá ser violada. Em FANTASIAS, UM ANTÍDOTO ela relata sobre os clientes assíduos, e em especial quando tem uma fantasia. Descreve uma, dentre tantas, em que esses clientes “Não nos davam trabalho, pois nem transavam”. Relata isso sem preconceito ou comparação diminuindo-os, mas destacando-os pela educação e que pagavam bem. A EXCLUSÃO DA DIFERENÇA ela relata o atendimento a homens PCD, Pessoa com Deficiência (termo não cunhado na época), e mesmo sendo difícil transar com eles pelas limitações que cada um apresentava, eram atendidos com respeito. Fruto, claro, do processo de se desintoxicar do sentimento de repulsa, nojo ao deparar-se no inicio com PCD e perceber que tinham seus sentimentos, suas necessidade, e então se perguntar: “ Meu Deus, que tipo de mulher sou eu?”. Em UMA TREPADA CORRESPONDE A QUANTOS TIJOLOS?  Referente ao objetivo maior que toda prostituta tem em comprar a casa própria, assim ela e as amigas, no qual ela cita “ser difícil fazer uma amiga na zona”, referenciavam o “valor de cada homem representa uma quantidade de tijolos”, ou seja, “estão sempre ligadas em ganhar o máximo de dinheiro e gastar o mínimo (...) elas não se divertem”. A ZONA COMO LAR, unir o útil ao agradável, morar no local de trabalho, não pagar duas vezes. NA MIRA DA DITADURA, década de 70, elas foram submetidas ao toque de recolher. Ninguém na rua após as dez da noite, bem como a presença de policiais monitorando e invadindo as zonas solicitando documentos e agredindo clientes sem nenhum motivo.  Cita o desaparecimento de duas meninas que entraram no camburão e nunca mais foram vistas. Decidiram fazer “uma manifestação, se organizaram por áreas, articularam-se donos de bares, garçons, cafetinas, malandros, travestis...a Boca do lixo e a Boca do luxo se juntaram em nome das prostitutas”.

No Quinto e mais importante de todos os mandamentos: não te apaixonarás pelo teu cliente, O PRÍNCIPE VIROU SAPO ela conta da relação com um cliente, do envolvimento, mesmo que não paixonite, mas que acabou em uma gravidez, que por ser católica não procurou uma clínica de aborto. Quando contou para o dito cujo, transformou-se em sapo de verdade. Achei significativo e desenvolvo um conceito pessoal a partir dele. Essa é a função da (o) profissional do sexo: não gerar dependência afetiva em ambos e tão pouco, dependência erótica. A prostituição o produto é o sexo sem o vínculo afetivo, mas para que o sexo aconteça, a empatia é fundamental. O respeito entre ambos, as carícias, um pequeno diálogo, o olhar, são técnicos da profissão e verdadeiros no objetivo do prazer. A prostitua não precisa ter o orgasmo ou prazer, mas conhecer as técnicas de produzir prazer. No caso da Gabriela, ela tinha prazer em ser prostituta. UM PRESENTE FELIZ em relação a gravidez, passou a trabalhar menos, a dona do quarto liberou o pagamento da diária. Foi bem cuidada pelas meninas com uma gravidez tranquila. Observo a solidariedade entre as putas, no caso da Gabriela, a atenção e carinho, correlata a qualquer família com laços afetivos. CARINHO EM DOSE TRIPLA aqui ela só complementa toda atenção, nesse o dia do parto no hospital e o retorno do sapo, sua então assiduidade, mas ela não se dirigia a ele. Fim do período de resguardo voltou para zona.

Sexto mandamento: não sairás da zona para morar com o cliente.  UM ABSURDO TENTADOR Convidada pelo sapo foi morar com ele e aceitou feliz como uma Cinderela, e precisava se preparar porque sua vida ia, de novo, mudar radicalmente. CINDERELA ESPATIFADA, não deu outra. O sapo continuou sapo e ela, arrumou a mala de novo e desta vez partiu para Belo Horizonte, voltar a ser puta.

Sétimo mandamento: terás ética. Nunca misturarás diversão e trabalho, mas deverás desfrutar das duas coisas. Nesse capítulo ela entre um tópico e outro, comenta culinária e cultura mineira em Belo Horizonte, ou seja, puta também observa, sente gostos, olha arquitetura, identifica culturas. NOS PASSOS DE HILDA FURACÃO ela descreve com romantismo a ícone da Zona Boêmia de Belo Horizonte. E desorientada por sair de São Paulo sem perguntar a ninguém onde ir, escreve “Ir embora talvez fosse mais importante do eu chegar”. Por não saber, perguntou ao balconista da lanchonete onde ficava a zona e ouviu a eterna frase que escutou até o fim de sua vida: “Mas o que uma moça tão distinta como você vai fazer na zona?”. Escolada respondeu: “Trabalhar”. E depois teve que se acostumar a outra frase preconceituosa: “Mas você não é uma prostituta norma, você fez faculdade de filosofia, você é branca...”. A CAPITAL DO PAPAI-E-MAMÃE. “Onde os mineirinhos são loucos, loucos por uma rapidinha” e observou o quanto os hotéis iam enchendo na hora da saída do trabalho. Disse que numa semana na Zona Boêmia de Belo Horizonte, uma semana de trabalho é equivalente a um mês em São Paulo. A POLÍTICA COMO AFRODISÍACO. No dia em que Tancredo Neves ganhou as eleições para governador, em 1982, ela “trabalhou sem parar, atingindo a marca de setenta e oito homens naquele dia. Brinco agora com o velho ditado: lavou a tica, literalmente. MAIS DIVERSÃO DO QUE TRABALHO Interessante que aqui ela descreve a gênese do delivery, “Se você pagasse, por exemplo, um rapaz fazia a entrega do seu almoço no hotel Catete”. E um alerta importante para hoje, em que a população é vítima das BETs. À noite ela trabalhava num cassino e graças às orientações do pai, excelente crupiê, de que “A máxima do jogo é a seguinte: Se você tem medo de perder dinheiro, não jogue. Porque você vai perder”. AMOR (E PROSTITUIÇÃO) ENTRE IGUAIS.  O lesbianismo entre as prostitutas. “E um acordo muito legal entre elas: amor com mulher, sexo com homem”. Mesmo se sentindo um peixe fora d’água, ela não se sentia constrangida entre as iguais. CHEGADA À CARIODA e ENFIM, COPAGABANA descrevem a transição natural dela para o Rio de Janeiro. ELE NÃO GOSTA DE PUTA, PARA NAMORAR. Com a mesma sensibilidade quanto as gostosuras do Rio, a dificuldade era namorar alguém com a sua profissão. Ninguém queria. E foi chamada a atenção por uma amiga: “Não está escrito na sua testa o que você é, para que dizer?” Mas que também era a primeira vez que ela estava num ambiente fora da boemia, onde os homens boêmios namoram prostitutas e prostitutas namoram homens boêmios. Fora dali, era sair do isolamento. Também ela observou que pela primeira vez em onze anos estava de férias, mas com pessoas que pertenciam “ao mundo comum”. ATRÁS DA ZONA DOS BRASILEIROS, pela primeira vez ela estava bronzeada e decidiu ficar e trabalhar no Rio. Encontrou uma zona e foi barrada por ser mulher branca, pois a zona era especializada pela preferência por mulheres negras e mulatas, para atender os turistas estrangeiros, transformando Copacabana num gueto à beira-mar. Defrontando-se então como conceito de Zona para brasileiros só restavam “mulheres no bagaço e bandidos”.

Escutei de uma Garota de Programa certa vez, que os clientes mais jovens a procuravam para não trair a namorada. Sim, buscavam sexo e não afeto.  No namoro, o sexo com afeto era com a namorada. Isso me lembra um caso interessante: a prostituição passiva, aquele que a Gabriela Leite indica como desejo dos clientes. Explico. A prostituição profissão existe para que (agora vou ser incisivo em função da hipocrisia) a filha com vinte anos, de uma família pobre, semianalfabeta, emoções não desenvolvidas, ensinada pela mãe que mulher não precisa estudar, nunca leu um livro, dependente emocionalmente, seja prostituída por um homem, catarinense da sociedade, servidor público, quarenta e quatro anos, velho, casado há vinte anos na igreja, quatro filhas entre dez e vinte anos, que só vai tê-la para sexo, nada mais e descartá-la como lixo a cada trepada e voltar para sua esposa (burra, claro) e ser pai da filha de vinte anos, enquanto a filha dos pobres da mesma idade ele prostitui, agora não como profissão, mas como objeto que usa e descarta. Destaco nesse caso que o senhor, rico, velho, de bem, só tem crise matrimonial e com novinha, que ele domina pela burrice emocional dela, porque mulher de verdade ele não é macho para encarar, e nesse caso, e é frouxo para encarar as profissionais do sexo.

Uma outra Garota de Programa me contou que um cliente após o serviço perguntou porque ela bonita e nova estava "fazendo aquilo"? Ela riu e respondeu: porque você está aqui. Se os homens não procuram a prostituta não trabalha. Rimos. 

Oitavo mandamento: cobrarás. Dentro da zona jamais poderás receber um cliente sem que ele pague por teus serviços.SE ALGUÉM QUER MATAR-ME DE AMOR, QUE ME MATE NO ESTÁCIO. Local de trabalho Vila Mimosa, uma formosa Zona, depois de passar de ônibus e descer num lugar horrível, andar um pouco mais e deparar-se com uma rua linda.  O PRIMEIRO CARIOCA A GENTE NUNCA ESQUECE e ASSIM FALOU VERA ela discorre sobre o adaptar-se as condições daquela zona, seus procedimentos e transitar entre uma casa e outra para escolher um bom local de trabalho.

Nono mandamento: desconfiarás da cafetina. Por mais que a dona da casa seja boazinha, não poderás ficar na mão dela. Terás que mostrar, com educação, que tu também és esperta. Esse é um capítulo mais extenso e como segue a cronologia, é o capítulo da em que Gabriela está mais consistente com os anos de prostituição e com um entendimento dos caminhos que construiu e na vida e continua construindo. PECADILHOS DE ISAURINHA ela fala sobre uma cafetina especial, empreendedora e qualificou seu processo de aprendizado. SAMBA SEM COMPROMISSO, “depois de muitos clientes, muitos papai e mamãe, um ou outro sexo oral é ora de um banho e ir para o samba até o amanhecer”. AMANTE E AMIGO mais um de seus namoros gostosos e respeitadores de sua profissão. PORTAS FECHADAS às visitas dos familiares e filhas, que não acompanhava o desenvolvimento, a deixavam deprimida por não aceitarem seu modo de vida e profissão.UM SONHO POSSÍVEL OU UTOPIA?  O início pensar “num modo de organizar politicamente as putas para lutar contra o estigma, a violência policial, o descaso das  cafetinas e muitas outras questões que envolvem nosso trabalho”. UM AMOR COMO PERDIÇÃO relata brevemente a história de “, D Vilma, uma prostituta que virou cafetina, sonho maior de nove entre dez prostitutas, que ficou na rua da amargura que se encantou por um malandro que pegava todo seu dinheiro para comprar cocaína”. PAU GRANDE, NARIZ MENOR AINDA ela faz graça com um namorado que teve, nas mesmas condições de D. Vilma, só que ela cortou o barato a tempo e o cara para se impor, falou de seu pau grande que ela não teria mais. Para ela um incômodo, que não satisfaz muitas mulheres, mas não valia a pena, porque mentia para cheirar cocaína. NA MÃO DOS TEMÍVEIS HOMENS DE BRANCO  quando teve um problema de saúde grave, e sua impetuosidade não aceitou os procedimentos médicos, saindo do hospital e tendo que retornar e submeter-se ao tratamento. E A PROSTITUTA FALOU quando ela, participou do primeiro Encontro de Mulheres de Favela e Periferia. E se apresentou como prostituta e se deparou com o tabu que perdurava entre as mulheres conscientes. TOQUE DE MIDIA e “foi só começar a falar para descobrir que tinha muita gente querendo ouvir”. AMOR DE RENÚNCIA quando começou a aparecer na mídia, o pai de sua filha, abriu um processo para pedir a guarda da filha. Ela sugeriu que a criança eram as amigas que então cuidavam. O pai ganhou a guarda, com a orientação do juiz de que “ele tivesse pela menina tanto amor quantos nós três tínhamos”. A elas dado o direito de “ver e passar os finais de semana com a menina”. O INICIO DE MAIS UMA BATALHA. Muito calor de dia não dava para trabalhar dado o suador desconfortável dos clientes. Ela observou que crianças brincavam num campo abandonado do metrô e comprou aquarelas e lápis de cor e ia brincar com as crianças. Um funcionário do Banco da Providência, da Arquidiocese do Rio, observou sua atividade e ofereceu uma sala desativada para brincarem lá. Sem querer, mesmo já sendo conhecida na mídia, começou um trabalho social. NEM JESUS CRISTO SALVA, com isso, as mulheres católicas começaram a implicar com sua presença, vendo-a como mau exemplo para as crianças, que até então, as católicas não faziam nada por elas. TERRITÓRIO DIVIDIDO Leonardo Boff a procurou na zona e levou um monte de comida para fazer uma Santa Ceia com as prostitutas. O convite foi para trabalhar com a Pastoral da Mulher Marginalizada, eufemismo para prostituta. Aceitou, mesmo não sabendo o que era pastoral e tão pouco ter fé católica. A PALAVRA PROIBIDA claro que prostituta não era um termo aceito, no lugar usavam menina. SAUDADE DA INOCÊNCIA ou ingenuidade. Aprendeu a discernir os cafajestes, seus sonhos de Cinderela da realidade. VIOLÊNCIA O X DO PROBLEMA. Convidada para um debate sobre sexualidade, conheceu um coordenador do Instituto de Estudos da Religião, ISER e foi consultada se queria sistematizar o seu trabalho. Com certeza, começou a participar do ISER  produziram o Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas.

Décimo mandamento: Terás orgulho da tua profissão e usarás camisinha.DO ESCONDERIJO AO ESTRELATO. Não é o estrelato hollywoodiano, midiático, fama de quinze minutos de Andy Warol, mas o estrelato de estar inserida no debate, no assunto, nas soluções, não na sociedade. Esta “sociedade” é excludente. Assim a profissão sai do gueto do vitimismo para o protagonismo. Da opção de vida. Das pesquisas acadêmicas de vítimas da sociedade para a profissão prostituta. Esse movimento surgiu antes do PT, antes da responsabilidade social e olhar para as minorias. Surgiu da concretude da vida, da existência da prostituta e da organização em nome de uma profissão. O identificar indicadores desde violência, analfabetismo aos cuidados com a saúde, distante do caridoso hipócrita “precisamos salvá-las”, enquanto os senhores de família, ricos, na covardia de não pagarem por sexo, prostituem as filhas jovens dos trabalhadores sob as psicovardes crises de casamento, idade dos bananas frouxos. DECADÊNCIA SEM ELEGÂNCIA. Relata a criação com outras colegas da primeira Associação de Prostitutas do Brasil, paralelo à transformação do Rio em lugar do crime organizado, tráfico, e com isso, no surgimento de ladrões e assassinatos. A zona não ficou em decadência pela trabalhadoras do sexo, mas entrou em decadência junto com a sociedade pelo crime organizado, lavagem de dinheiro, drogas. Foi quando então “a Zona virou uma zona”. DE VOLTA AO LADO A. Nesse contexto, Gabriela foi se afastando, a zona, não a da prostituição, mas do crime organizado, passou a não ser mais o seu lugar. SOS VIAL MIMOSA. Ao sair da vila, foi procurada pelas cafetinas para ajuda-las. Um pastor, começou a expulsar clientes e prostitutas, mediante a força, contratando capangas armados. Ela, então, junto com pastores, padres, imprensa e outros segmentos, fizeram uma celebração ecumênica e o pastor se comprometeu publicamente a não mexer mais com as prostitutas. UMA DOR SEM TAMANHO. O falecimento de seu pai.  A VOLTA DA POLÊMICA DO NOME. Em torno da sua legitimidade como prostituta, por ser branca, ter formação universitária.

“Tudo parece ousado para quem nada se atreve” – Fernando Pessoa. Com a mesma estrutura dos outros capítulos, que não usarei aqui, Gabriela descreve sua ousadia, em comum com suas companheiras prostitutas, em criar a ONG Davida, a grife DASPU, como alta costura, a grande sacada em parafrasear a famosa grife DASLU da alta sociedade e que estava em voga dado ao seu envolvimento em escândalo de lavagem de dinheiro. Cito somente o último tópico HORA DE ANDAR PARA FRENTE em que ela reflete “...nunca conheci uma puta que largasse a profissão por não gostar dela. A igreja misturou muito sexo com o amor. Sexo é da via. Amor é egoísta, é do indivíduo (...) Como fantasia, o desejo de ser puta acompanha todas as mulheres, na cama ou na imaginação. Mas como profissão é outra coisa, O que a puta tem que as outras mulheres não têm? Nada. O que as outras mulheres têm que a puta não tem? Nada. (...) Na Grécia, as mulheres não eram nada porque os homens adoravam transar entre si. Mas existiam um mulheres respeitadíssimas, que eram prostitutas. Elas eram preparadas intelectualmente para conviver com os homens. Sabiam filosofia, artes, ciências”.

Gabriela Leite é a personificação de Folhetim, de Chico Buarque de Holanda: "Mas na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim, pois já não vales nada, és página virada, descarda do meu folhetim". Cumprindo assim a gostosa função do sexo, ser vivido ou pago com "uma prenda, como uma pedra falsa, um sonho de valsa ou um corte de cetim" daquele perene/eterno enquanto dure, e libertar ambos da eterna moeda/prisão/para sempre da dependência afetiva e erótica e status social.

Infelizmente, em 2013, ela faleceu de câncer aos 62 anos.

4 comentários:

  1. Salve, Ricardo.
    Muito interessante a vida de Gabriela. Dona Gabriela!
    Que será que miotelo diria hj?

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    1. Salve, João. Penso que já deve ter revisado seu conceito. Gabriela, falcida cedo, aos 62 anos, nos deixou sua história registrada e nela desvelou meu olhar para todas as outras putas. As vidas passam a ser initeressantes quando nos interessamos por elas, as ouvimos, lhes damos voz.

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  2. Desculpe, não me identifiquei acima.

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