Nesse sentido,
como Helena Blavatsky, lia no etéreo, ou seja, ouvindo o que os outros leram,
numa ou outra citação de um livro, revista, no comentário de um professor.
Tinha
uma ideia existencialista desse romance, a lá, Jean Paul Sartre e a melhor de
todas, Simone de Beauvoir. Romance na materialidade. Ler agora, foi interessante porque tenho a idade do protagonista e os chãos trilhados se tocam.
Um
dia, entre 1988 e 1990, estava em Florianópolis em função de alguma atividade
de natureza sindical, estava em cartaz num cinema tido como alternativo, A
insustentável Leveza do Ser. Ainda lembro de forma difusa as paredes externas
verdes, uma varanda, portas em formas de arco romano. Mas difusa. Não sei se
existiram mesmo.
Do
filme uma lembrança única, uma das protagonistas, Tereza, para entender as “traições”
de seu companheiro, Tomas, envolve-se sexualmente com um estranho. Recortada e
difusa, lembro dela sair não feliz. Nessa sequência guardo o conceito de A
Insustentável Leveza do Ser, não conferida a Tomas, o leve, tranquilo em suas relações
abertas, mas a Tereza em buscar essa leveza. Fragmento difuso, mas que me acompanhou
nesses anos todos.
Ao ler
a obra, aguardava incessantemente encontrar a cena difusa em minha memória, única
referência de vínculo. Teria mesmo ou poderia ter sido acrescida pelo diretor
ou mesmo uma invenção minha? Ufa. Cheguei nas páginas que confirmavam a cena. Senti-me
familiarizado. E foi só.
A velha
máxima “as linguagens são distintas” confirmou-se. Cada linguagem expressa a
título de interpretação, suas leituras distintas do original. Seja pelas
ferramentas, instrumentos utilizados, seja por ser uma leitura do espectador.
Assim, o diretor do filme, é um leitor
do livro e reproduzirá fielmente o que o autor escreveu ou, invariavelmente,
reproduzirá o que entendeu com seus conhecimentos. Com isso cai por terra a
máxima tola de “o livro é melhor que o filme”, pois não se comparam linguagens,
mas compreende-se o que cada uma pode oferecer, jamais esquecendo que qualquer
linguagem ou ferramenta é operada por um sujeito manifestando-se, via
ferramenta, instrumento e linguagem, organizando um diálogo.
Milan
Kundera criou Tereza e suas características, mas Philip Kaufman colocar Juliette
Binoche como Tereza é o indicador significativo de que uma leitura é uma
co-autoria ad infiintun de cada leitor da obra original, sendo essa, já advinda
de outras relações.
Ao
livro.
Maravilhado!
Primeiro porque manteve minha leitura etérea a partir dos outros, como a minha
lembrança difusa da única cena do filme. Nem a sequência célebre de fotografias
pelas duas protagonistas eu lembrava.
Milan
Kundera narra como autor um romance que criou. Faz inserções distanciando-se de
sua própria criação. O que chama-se de metalinguagem (uma linguagem dentro da
outra), observo que ele faz o diálogo entre as linguagens, a ficção, o romance,
e a realidade, suas opiniões diretas, não somente no texto das personagens, mas
se próprio pensamento. Milan é um personagem à parte, narrador dos personagens
e de si próprio.
A
estrutura que ele discorreu o romance, remeteu-me a Pulp Fiction, 1994, sem linearidade.
Dentro dessa estrutura, algumas subdivisões me incomodaram, como períodos
curtos, bem delimitados e objetivos em contraposição de outros mais longos,
sugerindo um ritmo de leitura assimétrico e por vezes cansativo, mas sempre inovador
e significativo.
As
personagens, agora minha concepção existencialista, muito concretas, saem nhenhenhém,
vivendo um dia após o outro. Sim, com os elementos de ciúme, posse, mas
atenuados pelas decisões humanas. Faço, não faço. Estou sentindo, estou fazendo
sentir, mas humanas, resolvidas na materialidade da relação.
No
decorrer da leitura, estava temente, com alguns conceitos advindos do
criacionismo (correto na religiosidade e as emoções de dependência afetiva
produzidas por suas imagens, como “D’us quis assim, é destino, alma gêmea, romance
homem/mulher, mas não na materialidade civil, científica, diversa..) mas que nos dois capítulos finais, literariamente no texto do romance ele dissolve
espetacularmente.
O contexto
político da Primavera de Praga, 1968, invasão da então Tchecoslováquia pela então
URSS, seus desdobramentos de perseguições políticas e contexto para toda a
transformação da vida das personagens, o que toda ditadura faz. Milan Kundera
traça, assim senti, o drama da ditadura debatendo de forma pontual a repressão
à liberdade de expressão na individualidade, permitindo a analogia com o conceito
de kitsch extensivo a toda forma de pacote, enlatado, moda contido também na falsa
ideia de liberdade no capitalismo.
É isso.